Com los Recuerdos al hombro

FIQUE RICO SEM SAIR DE CASA

23 de nov de 2010

Amaro Junior

Minha Querida Escola, já sei ler e escrever, contigo aprendi que a vida não é nada sem você...
Eu na foto escolar em 1998
Quando me lembro da minha infância, é claro, não posso esquecer dessa escola, que marcou demais a minha curta vida. 
O nome da escola é Dr. Manoel Amaro Jr. Foi fundada em 1962. Amaro Jr foi o fundador patrono da escola. A escola fica ali na Vila Kennedy entre as Ruas XV de Novembro, 27 de Janeiro e Gustavo Guimarães. 
Na época em que eu estudava ela ia apenas até a 5ª série do ensino fundamental. Era uma escola bem pequena, com poucas salas de aula. Hoje é uma escola bem maior, bem mais ampla.
Estudei nela do 1º ao 5º ano. Depois saí, pois não tinha sexta série. Cada vez que eu passo em frente dela, momentos lindos retornam a minha mente. Coisas do passado retornam, as vezes com tanta nitidez, que parece que acontecem hoje. 
Tão nitidamente que aquela estrofe que dá inicio a este post é de uma música que eu aprendi lá na 3ª série. Nunca mais esqueci. Por muitos anos eu enganei o Leandro e o Renatinho dizendo que era eu quem compunha a famosa música, até que um dia  eles descobriram que eu aprendi na escola.
Minha vida escolar foi um pouco distinta das outras pessoas. Até hoje nunca entendi certas coisas. Por exemplo, quando eu comecei a estudar eu tinha já nove anos de idade. Muito tarde se formos comparar que as crianças começam com seis. Estudei nesse colégio entre 94 e 98. Nunca repeti uma série. Nem nesse colégio, nem em qualquer outro. Só por aí dava para se tirar uma ideia. Eu era o maior da turma, todos tinham medo de mim, embora nunca fizesse mal a uma mosca.
Da primeira série, duas coisas ficaram para sempre na minha mente. Primeiro, o famoso e já nostálgico mimeógrafo. O cheiro que ele produzia era tão particular que até hoje fico maravilhado quando vejo um. Coisas lindas eram aqueles desenhos feitos em papel ofício através de uma matriz. E o prazer que dava de pintar aquilo depois. Isso é nostálgico, é maravilhoso.
Segundo era a Professora Leonice. Tive várias e ótimas professoras, mas nenhuma me marcou tanto quanto essa. Não sei se porque era primeira série e tudo era novidade ou porque realmente aquela professora tinha algo de especial. Não sei. Mas eu me recordo de um caderno que ela me deu de presente uma vez. Um caderno bem simples, mas que com seu trabalho de arte virou o melhor caderno do mundo. Imagina, eu era criança. Aquele caderno todo desenhado, forrado e pintado, com vários desenhos de bichinhos deixou-me maravilhado vários dias e me fez sentir uma pessoa importante, pois havia alguém que se importava comigo.
Havia tantas outras pessoas naquela escola, essa que para mim, até os dias atuais é a mais especial. Posso citar, por exemplo, a tia da merenda, que sempre enchia o prato para mim, e causava ciumeiras entre os demais. Havia também o guardinha da escola, que certa vez foi me buscar em casa pois eu não ia a aula já havia alguns dias. Enfim, tantas coisas, que se não tivessem acontecido, talvez eu não estivesse aqui, escrevendo estas palavras, que são palavras de agradecimento.
O Amaro Jr. vai sempre ficar na minha lembrança. Lembrar-me-ei sempre das professoras Dulce, Berenice, Júlia, da Maria Dilu e claro da Aldiria, a famosa da 5ª série. Todos tinham medo dela. Eu me lembro que quando eu estava na 4ª série, o Rafa sempre me dizia que na quinta eu ia sofrer. Que nada, a quinta veio e eu passei na maior tranquilidade.
Fico recordando vários colegas de várias séries, que nem me lembro mais, mas com certeza marcaram minha vida, tais como a Davina, a Daiane (uma vez fui para secretaria por sua culpa), o Luis, o Paulo Henrique, o Claudinei, o Eliberto, o Jorge, o Davi,  o Amaro e claro todos os meus primos, o Pio, o Cris, o Rafa, a Adriana, o Gabriane, etc. A todos quero externar meus agradecimentos e dizer que como eu sinto saudades daqueles tempos em que éramos crianças e tudo podia acontecer.

4 de nov de 2010

Dairi, o Eterno

É dificil falar sobre esta pessoa e não ficar emocianado. O Dairi fez parte de toda a minha infância e de quase toda a gurizida que morava na Vila ou no Cerro. Sendo por isso que eu o citei em vários posts que escrevi.
É por isso também que, em sua homenagem, o Luiz tenha criado uma comunidade só para ele no orkut. Comunidade, inclusive, que dá nome a este post: Dairi, o Eterno.
Muitos leriam assim meio superficialmente e se perguntariam: mas por que eterno se ninguém vive para sempre e o Dairi não é tão velho, deve ter lá seus sessenta e poucos. Não sei. Mas vou tentar explicar um pouquinho disso.
Alguns anos atrás existia o que eu chamo de "turma da cachaça". Eram vários participantes: o Alceni, o Vaca, o Titila, o Dairi e outros agreagados menos influentes. Dos que eu citei, só o Dairi continua na ativa, os demais foram beber cachaça nos pagos celestiais ou infernais,  não sei. Por isso ele é chamado de eterno.
Naquela época, todos diziam que o Dairi não resistiria mais um agosto, que um dia iam achar ele morto em uma vala, coisas do gênero. Isso era dito principalmente pelo Vaca e pelo Alceni.
Mas assim não foi. O tempo passou, o Titila se foi, o Alceni se foi, o Vaca se foi e o Dairi? Continua aí forte e irredutível e mais cachaceiro do nunca.
Segundo o Luiz, o diferencial do Dairi para os outros seria porque se alimenta, coisa que os outros não faziam. Pode ser. Mas eu não poderia deixar de acrescentar mais uma coisinha, também importante: o Dairi é inocente. Ele seria imcapaz de fazer maldade a uma mosca sequer. Acredito que, mais do que a comida, esse seja o diferencial do Negão Dairi, como todos cosmumavam chamá-lo ou Bruce Lee, quando estava bêbado.
Para ser sincero, não sei exatamente como ele está agora. Mas sei que está na ativa, sempre na volta do Cerro.
Porém, voltando sobre a inocência do Dairi, sinceramente, nunca vi, em um homem, tanta humildade. Não sei se era a posição social dele ou se isso veio de berço, mas o homem era uma muralha de humildade. Nada tirava isso dele. Eu me lembro de uma maldade que o Vaca lhe fez (fez-lhe tantas outras), certo dia, o Dairi trabalhando no boteco dele (do Vaca), o Vaca que não era burro pagava em comida e cachaça; mas nesse dia ele fez uma "baita" sacanagem com o Negão: deu-lhe de comer em um penico. Está bem que o penico era novo, era da venda, mas mesmo assim a humilhação não poderia ser maior. Mas o Dairi era humilde. Comeu a refeição, mesmo naquele penico. 
Por isso que eu digo que este era o diferencial do Dairi, ele não fazia mal para ninguém. Várias vezes eu o vi ser humilhado, várias vezes eu vi ser espancado, várias vezes eu ovi chorar. Mas Deus estava do seu lado. Os opressores morreram e ele continua. Agora dentro de suas bebedeiras pode brincar a vontade de ser Bruce Lee. E ele é.

28 de out de 2010

O "Topetão"

O Topetão, assim era chamado o campo de futebol que ficava ali na vila, mais precisamente ali no Mutirão III. Perto da casa de todos.
As vezes sinto saudade desse tempo nostálgico que jamais volverá. Lembro-me das partidaças que ocorriam por lá. Não comentarei muuito sobre elas porque já escrevi em outros posts. Mas sempre é bom relembrar aqueles tempos perdidos.
Quando me lembro do campo "Topetão" muita coisa vem à-tona. O campo tinha esse nome - dado pelo Belo, irmão do dairi - justamente por ser todo irregular, cheio de calombos e buracos. Ninguém sabe ao certo de quem é aquele campo, se da Prefeitura ou de algum particular. Mas o certo que ali  era a nossa casa. O "estádio" tinha dois times, GEU e o GEK, mas de vez em quando outros times iam jogar ali.
Simplesmente era fantástico. Se juntava uma gurizada e se fazia campeonatos, na maioria oranizados pelo Cid, ou pelo Belo. As vezes não valia nada, apenas um troféu de lata que tempos depois seria dado como premiação em outro campeonato.
Mas o que valia mesmo era a diversão. E como tinha. As vezes aquele campo ficava abarrotado de tanto guri que queria jogar. As vezes os adultos também jogavam.
Sinto saudade daquele tempo. Lembro-me da gurizada, Pio, Valerio, o Negão Rafa, Cris, a gurizada do Cerro, da "Vila de Cima", do Belo, que sempre era juiz. Havia uma gurizada muito boa de bola. Mas só o Cristiano Barragana se animou a seguir carreira no futebol. Hoje joga em times do interior do Estado. Enfim, esse tempo era bom, jogávamos sem responsabilidades, a qualquer hora, qualquer dia, sempre fazendo a velha bola rolar.
No entanto, o velho campo já não existe mais. Vários fatores motivaram sua extinção. Não existe o gramado, mas o terreno baldio continnua.
Alguns moradores da redondeza não gostavam da presença do campo ali, pois fazia muito ajuntamento de homens. O campo também não possuía proteção de tela ou cerca. Muitas vezes a bola ia parar lá na casa da Kita e, não raras vezes ela ficou sem os vidros da janela. Foi a Kita que deu inicio ao fim do Topetão. Eu me lembro que uma vez ela mandou arrancar as traves. Uma vez ela foi mais loge: mandou queimar as traves. As traves eram de pau de eucalipto, por isso quando alguém arrancava ou as furtava, nós colocávamos outra em seu lugar. Era uma trabalheira danada.
Enfim outros fatores também contribuiram. Não raras vezes fizeram fogueira de São João nas suas proximidades, o que estragou ainda mais a qualidade do campo, que já era ruim. Outro fator é que a gurizada foi cresendo, assumindo responsabilidade, não queriam mais ficar cuidando de um campo velho. Vitória da Kita, portanto.
Mas além do futebol, outro fator me faz sentir saudades daquele campo: das brigas ao final da partida. Não que eu seja a favor da violência, mas aquelas brigas eram iguais a brigas de irmãos, no outro dia estavam todos de bem e jogando bola de novo. O brigão mais corriqueiro que existia era o negão Nilson. Também era o mais apanhava, do Ramão, do Valério, do Cid e de muita gente mais.
Porém, sem sombra de dúvida, a briga que mais eu guardo e nunca sai da minha cabeça foi entre Luiz e Cristiano Barragana. Aquilo sim foi uma briga de verdade. Como sempre depois do jogo, quem perdeu não gostou e ficou discutindo. A discussão foi aumentando até virar porrada. Mas foi uma briga apenas entre os dois, não foi uma briga generalizada. Mas foi a briga. O Luiz venceu.
Ninguém gostava de brigas. As brigas vinham no calor do jogo, depois era tudo esquecido, voltava-se a jogar como se nada tivesse acontecido. Algumas entradas mais ríspidas no desafeto, nada de mais.
Ah, "Topetão", um dia eu volto para jogar contigo. Um dia eu entro em campo de novo, no meu jogo de despedida.

15 de set de 2010

O "El Vaca que mató mi Hijo"

Impressionante como eu falo ou escrevo sobre esta pessoa. Talvez seja por causa dessa pessoa que eu seja do jeito que eu sou hoje. Acalmem-se. Não estou falando de nenhum exemplo a ser seguido ou uma pessoa a ser venerada ou adorada ou qualquer coisa do gênero. Não. Mas acredito que o caráter de uma pessoa é construído por etapas, com experiências, tanto boas e ruins.
Quando fui morar no Mutirão III, o Vaca logo tratou de me levar para o lado dele, pois ele tinha planos e eu contra ele seria uma ameaça. Não demorou muito. Logo fui seduzido pelas coisas fáceis do mundo. O Vaca tinha de tudo e eu, ao contrário, nada tinha. Então o que se podia esperar de um guri de dez ou onze anos? No começo fui presa fácil. Mas aprendi grandes lições que carrego até os dias de hoje.
Como disse, o "El Vaca" tinha planos. Ele era um homem muito "olhudo", ambicioso, cheio de interesses materiais. Quando fomos morar naquela casa, ele já tinha meu pai na palma da mão. Já o dominava completamente. Era o dono dele, em outras palavras. Meu pai fazia tudo o que ele pedia, exatamente tudo. 
Tanto fazia tudo que, na minha opinião, cometeu um dos maiores erros de sua trágica vida: vendeu (deu) a casa onde morávamos para esse cidadão de "olho grande".
Não arriscaria falar em valores, pois não me lembro quanto foi a negociação. Mas sei que foram mais ou menos nestes termos: meu pai dava-lhe a casa, em troca receberia um terreno com um chalé (que nunca foi dele), que ficava ali no Cerro da Pólvora, abaixo da Hidráulica, o Vaca quitaria sua conta no boteco e o restante, acreditem se quiserem, foi pago em mercadoria, isso mesmo, em mercadoria do boteco do Vaca. Um absurdo!!!! Mas isso não é nada. O chalé que ele deu era um lixo, insalubre, desumano, para dizer pouco. A casa (se é que dava para chamar assim) era de chão batido (quando chovia era um "deus nos acuda"), possuía apenas dois cômodos; dormíamos todos praticamente juntos, não tinha água encanada, apenas uma torneira na rua, não tinha luz elétrica e, pasmem, NÃO TINHA NEM BANHEIRO, isso mesmo, não tinha banheiro. Nosso banheiro era um canavial que ficava cerca de 30 metros campo afora. Um ambiente completamente insalubre e desumano. Uma verdadeira porcaria. O vagabundo ainda tinha coragem de abrir a boca e dizer que tinha nos ajudado. Mas nunca vi essa ajuda. Chegamos nesse momento ao fundo do poço, lugar inimaginável tempos antes, quando morávamos numa casa grande e arejada.
Tudo bem. Fazia parte de um plano, o qual me colocaria a frente de muita gente. Isso, a partir desse momento eu comecei a refletir como poderia mudar as coisas. Mas não conseguia traçar um plano. Não naquele momento. Pensa bem, era um infeliz, não tinha nada, era um magrelo fraco, mal-trapilho, que mal conseguia parar em pé.
Mas inconscientemente foi a partir daí que minha vida começou a mudar. Comecei ser parte dessa pessoa que sou hoje.
É claro não foi tão simples assim. Moramos nesse maldito lugar vários meses. Passamos um inverno terrível ali. Lembro-me até de uma história triste. Eu e meu irmão Paulo, estudávamos ali no Amaro Jr., pois era na época a escola mais próxima. Quando fomos embora para o Cerro, a escola ficou um pouco longe para o Paulo, que já dava sinais que pararia de caminhar em breve. Nós levávamos cerca de duas horas para chegar em casa; em circunstâncias normais, não levaríamos meia hora. Uma vez, uma das últimas que ele fora à escola, indo para casa, andávamos perto daquelas crateras que sempre existiram ali no Cerro. E estava escuro. O Paulo já não tinha força nas pernas, caía toda hora. Eu temia pela sua segurança, tinha medo sinceramente que ele caísse naquelas crateras. Por sorte não caiu. Mas ficou bem próximo. A partir dali ficou claro que ele não poderia mais ir a escola a pé. Pouco tempo depois ele deixou de caminhar de vez. Apenas andava de cadeira de rodas. Foi uma pena. Mas fazia parte da nossa vida.
Às vezes eu caio em devaneios e fujo um pouco do assunto, mas isso é proposital. Eu quero que os leitores entendam a minha situação naquela época, então eu puxo outros assuntos, para encrementar a história e não deixar nada passar.
Como citei anteriormente, moramos nessa "josta" apenas por alguns meses, graças ao bom Deus. Em seguida nos mudamos de novo para o Mutirão III. Inicialmente moramos nos fundos da casa do Vaca; depois nos mudamos para os fundos da casa que era nossa. Por incrível que possa parecer, fomos morar na parte dos fundos da nossa casa. Até parece brincadeira.
Essa casa (peça) também não era grande coisa. Era uma peça grande feita pelo Vaca (acho que ficou com pouco de medo, pois nunca nos pagou o preço) e era metade de alvenaria, metade de madeira. Tinha um banheiro que era meio social. Dividíamos com o locatário da parte de planchada da casa que era nossa.
Isso, o Maldito dividiu a casa em três: a parte principal, a da frente morava uma das "filhas" dele (há quem diga que ele nunca teve filhos de verdade), a do meio, que era de laje, ele alugava e finalmente a engenhoca de alvenaria-madeira, a qual a gente morava. Essa também era um lixo, mas não conseguia ser pior que a do Cerro. Mas ela só não caiu porque eu segurei com esteios, se não, tinha ido com os vários temporais que ela suportou.
Tão logo nos mudamos para ali, eu e minha mãe tratamos de traçar um plano para recuperá-la. Tentamos de todas as maneiras, mas não conseguimos. Envolvemos o maior número de pessoas possíveis, mesmo assim não conseguimos. Partimos então para a ignorância: arrombamento, destruição, roubos, etc. Mas não. O máximo que conseguimos foi recuperar a parte de planchada. Nada mais.
Moramos ali até 2003, quando fomos embora de vez da Vila, buscar outros ares, comigo já há bastante tempo no comando. Mas não entregamos a casa para o Vaca, demo-la para o Alcindo, um vizinho. O Alcindo vive lá até hoje, construiu lá. Na parte da frente mora a nega Guinga, que lá por 97 alugou aquela parte do Vaca, pagou uns dois meses e, nunca mais; apossou-se da casa. Bem feito. Tanto que ele queria se aproveitar, passaram a perna nele. Ele morreu sem nada, na verdadeira miséria. Tanto que ele queria somar posses, perdeu tudo. Mas principalmente, ele perdeu a dignidade, o respeito e o carinho que as pessoas sentiam por ele.
Em outro post, que servirá para complemento deste, escreverei o que eu fazia para prejudicá-lo, como eu fiz para tentar ao menos amenizar os problemas lá em casa, nessa época. Até lá.
Quero que o leitor possa interagir um pouco comigo. fiquem livres para comentar, criticar, dar sugestões ou me mandar recados. Prometo que responderei a todos. 
   

25 de ago de 2010

Atropelado por uma bicicleta

Muito embora tivéssemos ido embora do Mutirão I, nossa vida ainda estava atrelada àquele lugar. Foi difícil para todos nós acimilarmos a ideia de que deveríamos seguir a vida em outro lugar. Assim, todos os amigos que foram feitos nessa região ainda eram os nossos amigos. Apenas com o passar do tempo que a mãe e o pai e, até certo ponto nós, fomos fazer amizades com os novos vizinhos. Mas ainda nessa época era possível visitar o Luis Carlos, a Ana, o Marquinhos dentre outros.
Também o lugar de comprar as coisas não havia mudado. Até nos acostumarmos com os armazens dali, seguíamos nos deslocando até o Mutirão I para efetuar as compras. Assim era comum gente fazer compras no armazém do Amarildo ou no Gaúcho ou ainda comprar carne ali no açougue que ficava ao lado de onde hoje é o Supermercado Souza. Era uma aventura.
Sempre sobrava para mim é claro. A mãe precisava de algo, dizia: "Jesus vai na venda e isso", "vai na venda e busca aquilo", etc. Numa dessas feitas ela me mandou ao açougue. O dito cujo. Lá fui eu. Atravessei todo a vila para comprar sei lá eu o que. Era guisado eu acho. Mas fui. Meio resmungando mas fui. Nessa época eu já resmungava, já não tinha mais o mesmo respeito de antes.
Lá ia eu, tranquilo, numa dormência só. Eu me lembro como se fosse hoje. Era forte do verão e eu estava sem camisa. Estava moreno do calor do sol. Andava sempre sem camisa no verão, parecia um "bidiva". Atravessei todo o campo do florestal, entrei na Vinte e Sete, perto da casa que era do Boca, e ainda tinha que caminhar mais um bocado até o açougue. 
Naquela época a Vinte e Sete não era asfaltada e tinha um canteiro dividindo as duas pistas. Entrei na Avenida e vi duas bicicletas em alta velocidade (não preciso exagerar, mas alta velocidade para bicicleta). O que eu pensei? Inteligente que eu era: vou para o canteiro que assim não terá perigo. Que nada. Acho que fui dormento, burro e mais um pouco. Quando vi as bicicletas vindo na minha direção tratei de correr; mas não deu tempo. Fui atropelado por uma bicicleta de corrida.
Havia dois erros aí. Primeiro eu fui burro, deveria ter ficado na calçada Depois, ali não era loal de apostar corrida. Aquela Avenida sempre bastante movimentada. Sempre houve um fluxo de veículo muito grande.Portanto aqueles dois rapazes estavam errados. Mas naquela época ninguém se preocupava com isso.
Eu não me lembro muito bem o que bateu na minha cabeça, se foi o guidão ou o próprio cara querendo me derrubar colocou o braço. Mas uma coisa eu me lembro muito bem: eu caí e fui arrastado por vários metros. Agora imaginem a cena. Imaginem também o estado que fiquei depois. Ela Avenida de terra seca e dura e com muitas pedras, fiquei com o peito e o abdômen na miséria, todo esfolado e machucado.
Quem me socorreu foi a mulher do Boca. Colocou remédio - mercúrio eu acho e metiolate - , fez curativos e queria levar-me em casa. Que nada. Turro que nem eu, estava preocupado mesmo era com o dinheiro que havia caído e eu estava com medo de tê-lo perdido. O cara que me atropelara encontrou e me devolveu.
Ainda assim, todo machucado, fui ao açougue e comprei o que a mãe havia ordenado. Cheguei em casa ela levou um susto. Eu disse que fora apenas um acidente, nada mais. Foi um susto danado.

10 de ago de 2010

Historias Esquecidas

Bem amigos, primeiramente peço desculpas pelo lapso de tempo que fiquei sem escrever. Esse mes de julho aconteceram-me tantas coisas que nao estava com cabeça para escrever nada. Mas hoje estou me rdimindo, postarei varias coisas que me aconteceram ainda quando eu morava no Mutirão I, mas que passaram desapercebidas e pude escrevê-las antes. Algumas delas foi meu irmão Luis que me releembrou, pois sinceramente já havia olvidado. Bom aí está, deliciem-se.

Recordando
Infelizmente a mente humana às vezes nos trai. Esquecemos coisa importantes de nossa vida passada e delas não mais lembramos a menos que alguem nos reelembre. Quando escrevi o post “O Começo na Vila”, esqueci-me de acontecimentos que haviam ocorrido ainda no Mutirão I.Contar-lhes-ei agora neste post espcial de recuperação. São apenas algumas historinhas: O dia em que me pus fogo, o dia em que engoli uma moeda, os ciganos e a travessia da 27, alem da morte do vô Jaime. Contarei de maneira sucinta e resumida. Apenas uma breve relembrança.

O dia em que me pus fogo
Não me recordo muito bem do ano, mas era noventa e pouco. Naquela época não tínhamos fogão a lenha em casa, só gás. Então quando faltava gás era um caos. Se não tinha dinheiro então, o caos era dobrado. E se faltasse no dia que o botequeiro do fiado estava fechado, o caos era o triplo. E foi o que ocorreu, o maldito gás faltou justamente quando a coisa já não estava muito boa.
Para fazer comida havia poucas alternativas, rabo quente, fogo na rua ou o famoso fogãozinho feito de álcool. Como funcionava: pegava-se uma lata baixinha, geralmente de patê, enchia-se de álcool, quatro ou mais pregos pregados numa tábua qualquer e era só acender que estava pronto o fogão improvisado. Tínhamos um fogo suficiente para fazer comida, aquecer água, entre outras coisas.
Uma dessas vezes, quando foi feito um fogãozinho desse tipo, eu é que quase fui fritado. Aquilo tinha que encher de álcool de quando em quando, para o que estava cozinhando não ficar cru pelo fogo apagado.
Certa feita fiquei eu de encarregado de repor o álcool faltante. Pra quê. Guri, arteiro, com bobagem certeza faria, e fiz mesmo. Ao pegar o álcool para repor, não percebi que tinha derramado o liquido por boa parte de meu corpo; quando coloquei no recipiente, o fogo se alastrou por todo o meu corpo. Queimei meu braço direito, a perna direita e parte da região abdominal. Sorte não queimou meu rosto. Quando percebi que tinha posto fogo no corpo foi aquele griteiro. Eu só me lembro do meu pai com a vassoura na mão para apagar o fogo. Não sei o que foi pior, se o fogo, a vassoura ou a pasta de dente que minha mãe colocou depois. Naquele dia eu chorei a noite inteira.

A morte do Vô Jaime
Não que tenha esquecido dele, mas é que me lembro tão pouco do episodio que não tinha como escrever um post legal.
Sinceramente, apesar de ter falecido ainda no ano de 92, pouco me lembro do pai da mãe. Eu me lembro apenas que ele era magro e velho, nada mais.
O que eu me lembro mais da morte do vô, foi a camioneta Kombi branca que levou o caixão até o cemitério Municipal. Recordo também que era da prefeitura e o caixão também era da prefeitura, que até há alguns anos teve uma fabrica de caixão ali onde é hoje a UNIPAMPA, então as pessoas que não possuíam condições de pagar funerária, servia-se dos caixões fabricados pela prefeitura, alem da Kombi.
Infelizmente eu não recordo de mais nada sobre o tema. Apenas uma coisa foi certa nisso, que depois do falecimento do vô a vó não foi mais a mesma. Desde desse episodio, culminado depois pela morte de todos seus irmãos, essa “veia” tem altos e baixos, vivendo só em depressão. Coisas da vida, infelizmente.

O Dia em que engoli uma moeda
Quando eu era pequeno, eu ajudava minha mãe a cuidar de meus irmãos menores. Ajudei a cuidar do Renato, da Pérola e da Márcia. Uma vez cuidando dela, com aquelas manias de moleque, pus uma moeda na boca. Andava para lá e para cá com aquela moeda sempre debaixo da língua. Que mania ridícula.
Mas numa dessas, aquela moeda caiu para onde não devia: para a goela. Fora um tremendo susto. Larguei a guria no chão rapidamente, e comecei a me engasgar ali mesmo, num desespero sem fim, foi quando a mãe ouviu a guria chorar foi ver que estava acontecendo e me ali lutando pela vida. Só me lembro do soco nas costas e moeda sair para bem longe. Depois dessa aprendi uma lição: nunca mais por moedas na boca, alem do perigo de se engolir tendo em vista seu tamanho, também é nojento, sujo e pode transmitir doenças. Moedas na boca nunca mais.

Os ciganos e a travessia da 27
Quando morávamos ali na 27 de Janeiro, havia um campo muito grande onde havia ou há ainda uma casa muito velha. Essa casa por ora servia de loja de produtos agropecuários, ora casa de moradia, em fim, ela já foi um monte de coisa.
Mas eu me lembro que, na época em que eu morava lá havia sempre uns ciganos que acampavam nesse local. Eu achava muito engraçado o jeito deles, seu modo de viver, as coisas estranhas que faziam. Eles sempre iam na minha casa pegar água.
Eu de vez em quando ia visitá-los em suas barracas. Entretanto, para fazê-lo eu devia atravessar a Avenida 27, que naquela época já era muito movimentada, pois ali era o caminha para o Curral de Pedras, entre outras localidades muito procuradas antigamente.
Mas eu era tão idiota, acho que queria parecer o “maioral”, o bom, sei lá eu, que sempre que ia atravessar esperava um caminhão bem perto, só para mostrar para os ciganos que eu era mais rápido que os caminhões. Fiz isso varias vezes, até a mulher morava nessa casa velha a qual me referi alertou-me quão perigoso essa isso e que eu não deveria fazer mais, deveria esperar todos os veículos passarem primeiro, só depois então atravessar. Nesse dia aprendi mais uma lição: jamais provoque quem pode te destruir.

30 de jun de 2010

O Inicio na Vila

Os primórdios dias em que vivi na Vila Kennedy já me ditavam o que viria por dali em diante. Haveria uma grande mudança na minha vida. Eu ficaria mais rebelde, mais solto e bem atirado, na boa expressão da palavra.
Não conhecia praticamente ninguém naquela zona, além dos meus primos. Fui conhecendo aos poucos. Alguns eu me dou bem até hoje, como é o caso do Caco, do Alcindo, do Valério e do Renato Bolacha. Grandes amigos da minha juventude futebolística no nostálgico campo Topetão. Topetão era um campo de futebol de cinco perto da nossa casa. Tinha esse nome, que fora dado pelo ilustre Belo, irmão do Dairi, justamente pela quantidade de morros que possuía. Não era muito difícil o camarada sair lesionado do campo, geralmente com um dedo destroncado.
O Topetão fora palco de grandes jogos e muitas brigas também. Existiam muitos times da gurizada da volta e por isso se fazia muitos campeonatos. A maioria organizados pelo Belo e pelo Cid. Grandes clássicos foram organizados neste campo, clássicos também jogados nas quadrinhas de cimento que ficavam nas praças da vila, na de cima, perto do posto de saúde e na de baixo, junto ao Castelo Branco. Existiam muitos times, mas os principais eram: GEU (Grêmio Esportivo União), que pertencia ao Cid; o GEK (Grêmio Esportivo Kennedy), que pertencia ao Luís; o Cerro da Pólvora que pertencia ao Ércio; o Heineken (homenagem a cerveja), que pertencia ao Tiaguinho e a turma do Minhoca, além de outros times mais distantes como o Prado e o da Vila Vencato. Grandes campeonatos eram organizados, valendo qualquer coisa. Sempre acabava em briga. Eu me lembro que o maior clássico ficava por conta de GEU e GEK. Talvez por pertencer a mesma familia ou por serem muito próximos ou até por usarem o mesmo campo, o Topetão. Recordo que eu jogava no GEK. Cada jogador tinha o passe fixado num valor imaginário. Se um time quisesse aquele jogador, tinha que pagar o preço. Os dois times, GEU e GEK, foram fundados praticamente no mesmo dia e do mesmo jeito. Numa pescaria no "Posto de Bomba", o Cid disse que queria fundar um time de futebol. Daí nasceu o GEU em 15 de janeiro de 1996. No outro dia o Luís fundou o GEK. Por convenção, os irmãos ficaram no time do fundador, por isso eu fiquei no Kennedy e, Pio, Rafa e Nero ficaram no União.
Tirando essa parte futebolística, minha vida nos primórdios tempos em que vivi ali, que foi de 94 até 98, era uma loucura. Eu andava muito solto, fazia o que queria, saía de casa a qualquer hora e voltava a qualquer hora. Foi a época em que me rebelei conra tudo e contra todos. Esse período foi marcado prinipalmente pelas brigas com o Alceni, pelas fugidas de casa e por ter me envolvido com o Vaca, tendo experimentado cigarros e bebidas alcoólicas. Estava indo pelo mesmo caminho de meu pai.  
Esse período posso dividí-lo em três: Quando nos mudamos, na troca de casa; quando o Alceni fez a maior burrada de sua vida (escreverei sobre isso em outro post); e quando retornamos a morar ali no mesmo lugar, só que nos fundos da nossa antiga casa, onde moramos até 2003.
Posso considerar que fora um período negro da minha vida. Não pelos amigos que eu fiz por lá, mas pelas más influências, principalmente a do Vaca. Nessa época também já não aceitava mais imposiões de meu pai. Eu me lembro que a gente brigava de cabo de vassoura. Depois da briga eu saía de casa e só voltava quando ele me chamava. As vezes ficava meses fora de casa.
Certa vez, talvez seja a partir desse momento que conheci o Vaca de verdade, nós brigamos feio. Eu me lembro que tinha um cabelão, não comprido, mas muito grande. Ele saíra do boteco do Vaca, que ficava cerca de 50 metros de nossa casa; não sei porque, ma ele veio sorrindo e eu já achei que vinha bronca por ali. Dito e feito. Parecia que tinha prazer de maltratar os outros. Veio na minha direção, agarrou-me pelos cabelos e me soqueou todo. Eu só me desvincilhei quando lhe dei uma mordida. Ele me soltou e ficamos nos agredindo mutuamente, física e verbalmente. Eu nunca me esqueço desse dia. Era forte do inverno. Naquela noite eu dormi numa barraca feita no campo Topetão, que servia de vestiário e local de reuniões do time. Aquela foi uma das noites mais fria e mais triste da minha vida. Era eu, o Bob, o cachorro do Negão Rafa e um fogo amigo; mais nada. Parecia que o dia nunca chegava.
Depois eu sumi. Ficava cada dia na casa de alguém. A partir desse dia eu me tornei um homem e mandei o Vaca, o Alceni e não sei mais quem à "merda", "puta que pariu", não sei mais o que.
Hoje posso dizer que foi um tempo difícil, mas também de aprendizado. Não seria o que sou hoje se não tivesse passado por isso. Nem tudo é espinho, existem flores também nesse jardim.

23 de jun de 2010

A Troca de Casa

Era fim de 93, inicio de 94, nessa época percebi que mudaríams de casa mais uma vez. Havia um alemão, de nome Francisco, meio esperto, trovou meu pai para trocarem de casa. Não sei se foi a vontade de mudar de casa ou foi pela vontade de ficar mais próximo do boteco do Vaca que o fez aceitar a permuta. Só sei que aceitou de pronto.
Ele trocou uma casa na Avenida Vinte e Sete de Janeiro, principal via da cidade, por uma casa nos fundos da Vila Kennedy; para aumentar o desespero, por uma casa pior; tremenda burrice.
A casa da Vinte e Sete de Janeiro era bem melhor. A casa do Mutirão III, fora aumentada, contruído dois quartos, um de casal e um de solteiro, por isso até parecia grande. O terreno era a metade. Sem considerar a localização. É só comparar: Vinte e Sete de Janeiro, 2.412 com Antonio Lino de Souza, 06. Inacreditável. Uma casa valia vinte por cento da outra. Anos mais tarde passei por aquela que fora nossa casa um dia: construíram verdadeira uma mansão ali. O melhor de tudo era que dava frente para duas ruas. Na época em que nós morávamos não era uma casa esplenderosa, mas era melhor do aquela com que fora trocada. Infelizmente são coisas da vida. Na vida tudo passa, menos a morte, essa nos pega sempre.
Não saberia dizer com certeza qual foi a negociação. Mas me lembro que na troca ficavam de fora as aberturas. Então me lembro que foram retiradas algumas janelas e portas. Meu pai colocou outras depois. Lembro-me que tinha qualquer coisa referente a setecentos pilas, o que daria em reais coisa parecida com R$ 1.000,00. Uma verdadeira pechincha. Mas fora mais ou menos assim. 
Ficamos ali nessa casa por apenas alguns meses. Logo ele fez outra burrada ainda maior. Mas isso é assunto para depois. Só sei que essa mudança encurtou ainda mais os laços de amizade entre meu e o Vaca. O Vaca, sempre o Vaca, já estou até enojado de falar desse cara; mas é assim mesmo. Depois o Vaca passou a perna nele, tirou tudo que ele tinha. Mas ele continuva puxando saco do Vaca. Era uma paixão doentia.
Entretanto, se por um lado isso, por outro, eu não posso reclamar, não da casa, mas do lugar. Ali eu fiz grandes amigos, aprendi lições valiosas. Eu saí em 94, voltei em 95 e só saí de novo em 2003. Até hoje eu posso visitar meus amigos daquela parte da cidade. Isso sim valeu a pena. Isso ninguém nos tira. Podem nos tirar casa, emprego, mulher, mas os verdadeiros amigos ninguém pode tirar-nos. Somente isso e o conhecimento que temos é que levaremos conosco, o resto é passageiro. Por isso eu não reclamo.

18 de jun de 2010

Bolo de Chocolate

Quando eu começo a escrever algo sobre minha vida, fico analisando tudo que já me aconteceu até aqui. Sucederam-me muitos eventos. Alguns bons, outros nem tanto. Eu não quero passar para o leitor uma imagem de infeliz, coisa que eu não sou. Também não desejo, em hipótese alguma, que alguém sinta pena de mim. Odeio o sentimento de pena. Acho que é o pior sentimento que uma pessoa pode sentir por outra. Porque quando sentimos pena de alguém é como nos sentirmos superiores ou que aquela pessoa não passa de um "Zé NInguém", um infeliz, cuja existência não vale de nada. Não, isso eu não desejo que as sintam por mim. Não quero que leiam o que eu escrevi e digam que sou um pobre coitado; muito ao contrário, quero que as pessoas me vejam como alguém que deu a volta por cima e reconquistou tudo aquilo que fora perdido, e o mais importante: a dignidade. Ela fora jogada fora, mas a reconquistei. Hoje vivo bem. Com a ajuda de algumas pessoas pude superar o trauma de praticamente viver na rua e conquistar tudo novamente. Hoje sou uma pessoa que pode se orgulhar de ter passado todas as barreiras da adversidade e superado as dificuldades da vida. Aprendi muito com isso. Isso me fez crescer, tanto profissionalmente, tanto como pessoa humana. Por isso não quero que ninguém pense que sou um coitadinho. Ok? Valeu galera.
*****
Bom dito isso vou à história de hoje. Era meu aniversário de nove anos. Já estava ficando velho. Eu nunca tive uma festa de aniversário de verdade. Nunca, nem depois de velho. Hoje eu nem me importo mais com isso.
Quando era garoto só queria esperar os anos passarem. Quando se é adolescnte, queremos logo chegar a maioridade, "pra ser dono do seu próprio nariz"; entretanto, quando a maioridade chega, dá uma saudade e queremos voltar a ser jovem de novo, para tentar viver aquilo que desperdiçou quando adolescente e tentar consertar os erros. As vezes eu sou assim. Quero voltar, mas não é possível.
Porém, voltando ao assunto, eu recordo que era de 93, primavera, eu tive então, uma mini-festa, se é que possível dizer assim. Era um bolo de chocolate, bem grande, e "ki-suco". O bolo feito, advinhem por quem!!! É, pelo meu pai. De vez em quando ele era bondoso e fazia as coisas pra gente. Até então, eu não sabia o que era ter um bolo de aniversário. Já tinha comido, é claro, mas no aniversário dos outros, no meu não.
Mas nesse dia eu tive alguns minutos de alegria. Eu e meus comemos um bolo de chocolate feito por nosso pai. É verdade, não era um super-bolo, mas o vale é a intenção e a dedicação que se coloca em alguma coisa. Pronto. Das pequenas e simples coisas, são feitas grandiosas obras.
As vezes precisamos fazer algo tão pequeno para ajudar ou fazer alguém feliz, mas queremos fazer sempre o mais dificil. É a nossa falta de perceptividade.


15 de jun de 2010

Alceni Covarde

Poucas pessoas pessoas entendem hoje quando eu falo do Alceni, meu pai. Muitos dizem que coisas do passado lá devem ficar e se, Deus perdoou a todos, porque eu não haveria de perdoar. Bom, Deus é Deus, eu sou eu. Sou Jesus, mas também sou humano, tenho as minhas fraquesas e não deixo de ter razão. As pessoas que me criticam não sabem pelo que eu passei e que eu vi passarem minha mãe e meus irmãos menores. Talvez se tivessem presenciado dez por cento não teriam coragem de dar uma opinião contrária sequer.
Pois é pessoal não me critiquem. Eu sou assim mesmo. Tenho dificuldade de esquecer as maldades que me fazem.
Poderia enumerar aqui muitas de suas atrocidades, mas não o farei, por dois motivos; um porque não faço questão de ficar remoendo pesadelos do passado; outro, porque não sei até onde podem ir minhas palavras e posso até magoar alguém. Essa com certeza não é a minha intenção.
Mas vou citar duas apenas, para resumir a história e para que os leitores possam ter uma ideia de como ele era. Quero apenas releembrar aqui que eu e ele passávamos brigando, para que não digam que eu não fiz nada; entretanto, nos episódios de maior dor, eu era muito pequeno, quase nada poderia fazer, portanto. Depois que eu cresci ele diminuiu um pouco, por eu tentar controlá-lo e também por causa da cachaça, que o destruiu completamente. Ela foi culpada de tudo; ela e o Vaca.
Não sei precisar a data, mas faz muito tempo. O Alceni tinha um problema: era impaciente. A Márcia tinha meses de idade, um ano talvez. Como toda criança, certa noite se botou a chorar sem parar. Não sei o motivo, mas chorava muito. Talvez estivesse doente, com cólicas, ou fosse apenas manha, o certo é que não necessitava tanta maldade. Lembro-me que me levantei durante a noite e vi aquela barbaridade. Ficava ali imaginando por que tudo tinha que ser daquela forma. Por mais que eu tentasse achar uma razão para justificar tal ato, não conseguia. A guria chegou a se cagar nas calças de tanto tapa que levava. O que mais me surpreendia era que a mãe nada fazia, não sei por que, talvez estivesse com medo também. Mas era cruel, toda vez que bebia fazia destas coisas.
Uma outra vez, a vítima foi o Paulinho. Paulo era deficiente, tinha dificuldades para se locomover. Estávamos indo todos para casa depois de uma festa na casa do Vaca, no Mutirão III, atravessávamos o campo do Florestal, quando o Paulo disse, meio sem querer que ele estava bêbado (e estava), quando de repente levou um tablefe. Paulo contava com nove ou dez de idade, já demostrava que em pouco tempo deixaria de caminhar. Levou aquele tapa e ficou no chão sem ter forças para levantar-se. Eu o ajudei a levanta-se. Hoje, ao lembrar dessa cena fico constornado. Agora em agosto fará dez que ele faleceu. Eu nunca esqueço dele, porque muito o cuidei.
Essas e entre outras covardias eu presenciei. As pessoas que talvez não saibam disso, não entendem o ódio que eu sentia pelo Alceni. Jamais consegui perdoá-lo. Muitos me criticam por causa disso. Não posso fazer nada. Eu sou assim mesmo, não consigo ser falso. Se eu penso alguma coisa, trato logo de mostrar. Eu não fico fingindo o que eu não sou. Quem me conhece sabe disso.




7 de jun de 2010

O Nascimento da Sheyla

As vezes os acontecimentos são tão importantes na nossa vida que guradamos por anos, muitas vezes até a morte. Muitas coisas levamos conosco no caixão, não compartilhamos com ninguém. Mas não existe nenhum segredo indecifrável. Um dia eles vão ao conhecimento das pessoas.
Mas acho que as coisas devem ser compartilhadas, principalmente o conhecimento. A única coisa que podemos dizer que nos pertence de verdade é isso e ninguém poderá nos tirar. É o único bem verdadeiramente que possuímos.
O que eu quero dizer é que o objetivo deste blog não é contar minha vida a ninguém, mas sim uma troca de experiência, onde eu posso dizer que aprendi muito. Essa é a experiência da minha vida. Vivi pouco, é verdade, mas tenho experiência pra dar e vender. Por isso eu compartilho aqui todas essas historias, mui verdadeiras por sinal, para que todos no mínimo saibam pelo que eu passei. Estejam todos livres para comentar, elogiar, criticar, dar sugestões, pois afinal aqui é um canal de comunicação.
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Bom, o que eu queria escrever hoje é outra coisa. A mãe tem um monte de filhos, era uma fábrica de crianças. Era efeito "escadinha", as vezes a diferença de idade era inferior a dois anos. Incrível, mal uma começava a caminhar e ela já estava prenha de novo. Não critico isso, acho que fez parte de uma época, e os frutos estão aí, vejam só por mim, haha.
O normal é que as crianças nasçam no hospital com todo acompanhamento médico, higiene, segurança, etc. Eu disse que era o normal, mas há excessões, é claro. O exemplo dessa excessão é a Sheyla, a mais nova de minhas irmãs. Hoje quem a conhece nem imagina que ela nasceu em casa, em cima da cama da mãe. Isso mesmo, a mãe deu a luz à Sheyla em casa. Quando menos se esperava, puf, a Sheyla veio ao mundo.
Era final de 92, inicio de 93. A mãe fora diversas vezes ao médico e só diziam que não era o momento, que deveria esperar mais um pouco, que talvez para o final de janeiro. Mas eles erraram os prognósticos.
Eram 02 de janeiro de 93, começo da noite, uns gritos são ouvidos. Era a mãe numa gemedeira só. Não vai dar tempo, não vai dar tempo, era o que se ouvia. E não deu tempo mesmo, em seguida se ouviu um chorinho de criança. A cama dela ficou toda ensanguentada. Era a Sheyla que chegava de repente.
Eu me lembro que para fazer o serviço de parto foi chamado uma "nega véia", que morava ali nas proximidades, acostumada já com esse tipo de serviço. Até hoje eu me lembro da pessoa, mas nunca consegui gurdar o nome. Sei que ela é gente do Amaro Junior, que moravam ali na XV de Novembro, próximo ao colégio.
Foi uma obra-prima. Quando a mãe foi ao hospital, foi só para fazer repouso, porque não tinha nenhum procedimento médico a ser feito. Incrível. Como as pessoas de antigamente sabiam fazer de tudo. Hoje vivemos a época do "fordismo", onde as pessoas são treinadas para fazer uma única coisa, para se produzir em larga escala. Admira-me também a coragem, tanto daquela mulher, que fez o trabalho com destreza e esmero e da minha mãe, não deve ser fácil passar por uma situação dessas. Eu vejo hoje as mulheres muito fiasquentas para ter um filho; não pode isso, não pode aquilo, tem que ir para o hospital não sei quantos dias antes, enfim uma infinidade de frescuras. Eu sei, era outra época.  

2 de jun de 2010

A Minha Infância

Sempre quando me lembro da minha infância, vem-me à cabeça os brinquedos. Não eles, mas a sua falta. Nunca tive quantidades de briquedos a ponto de exuberar. Meus pais naquela época não tinham dinheiro para me dar brinquedos. No máximo um carrinho, um bonequinho, uma bola, nada mais. Também não se pensava em jogos de "video game", computador então, nem se considerava a sua existência.
Hoje as crianças têm tudo e não dão valor; elas perderam um pouco da criatividade e até do respeito ao próximo. Por não ter tantos brinquedos, talvez eu tenha aprendido uma das maiores lições da minha vida: fazer as coisas em equipe e a compartilhar. Hoje, em virtude de ficarem muito tempo na frente do computador jogando, msn, comunidades sociais, etc, as crianças ficam muito individualistas e egoístas. É uma pena, estão perdendo o melhor da infância. Infância fica melhor quando se tem amigos, se pode ficar na casa dele de vez em quando e ele na nossa, é se sujar sem que a mãe brigue, jogar bola na frente de casa, brincar de luta e até brigar; isso faz parte de nosso crescimento e aprendemos lições que levaremos para vida toda.
Meus amigos de infâcia eram todos meus primos. Quando eu era criança dificilmente meus pais deixavam eu sair de casa, portanto, meus amigos eram meus primos, pois estes eu podia visitar.
Eu disse que não tinha quase brinquedos, mas o Cris tinha. E muitos. Eu me lembro que quando ia na casa dele, a Catita sempre vinha com saco cheio de brinquedos, um saco daqueles de telinha, de cebola, e esparramava tudo no chão. Enquanto ela e minha mãe ficavam tomando mate, eu e Cris ficávamos brincando. Mas eram muitos brinquedos mesmo. Tinha "homenzinho", soldadinho, cavalinho, caminhão, carros; tinha uns bonecos que funcionavam à pilha que quando ligava fazia uns barulhos estranhos, parecendo estar em um combate. Tinha também o homem aranha, super-homem e uma infinidade de brinquedos. Era uma maravilha tudo aquilo pra dois guris de sete ou oito anos.
Fora isso, todas as outras brincadeiras eram feitas sem brinquedos. Com os outros primos as brincadeiras eram um pouco diferentes. O Pio e o Rafa eram bem mais soltos que o Cris. Então nós brincávamos na rua. Jogando bola, fazendo brinquedos de greda, "tampicross¹", andar de bicicleta, pega-ladrão, entre outras bricadeiras de guri. Às vezes eram tanta gente envolvida, que a brincadeira virava um "frege". Às vezes a gurizada se pegava a pau, mas isso fazia parte da integração, logo estavam todos de bem novamente.
O único porém eram os guris mais velhos. O Cid e o Luis sempre passavam a perna na gente. Inventavam coisas que nunca existiram. Às vezes chegavam a assustar os menores. Usavam muito da superstição para levar vantagem. Inventaram até um tal de Vick-Man, um super-heroi encarnado num deles para exigir coisas. E sempre conseguiam. Eu me lembro até do "sagrado Monte Zebu", uma bobagem que hoje não existe mais. Na realidade era um morro ficava ali nas proximidades do Mutirão III, que eles diziam que era sagrado e as coisas que conseguíamos era para ofertar ao tal heroi, deus, sei lá o quê, nesse morro. Era uma trouxisse, mas era legal a brincadeira.
Entretanto, a brincadeira que eu mais gostava era a "de acampamento". Não só no mato com pescarias, mas também nos fundos do pátio. Nós brincávamos de quartel e guarda. O Cid era o comandante, sempre, era o mais velho da turma; o Luis era o sub-comandante, era o segundo da lista; o restante eram todos soldados e deviam trabalhar, deviam revesar-se na guarda noturna. Os mais velhos sempre achavam um jeito de assustar os já assustados "guardinhas" de plantão na madrugada. De vez em quando o silêncio era cortado pelo grito de "socorro mãe". Não sei mas é primeira pessoa que a gente chama quando está assustado.
Tempo nostálgico. Às vezes paro e quero voltar atrás reviver tudo de novo. Que boa época era aquela, onde não existia maldade e as coisas eram feitas com extrema expontaneidade. Acho que apesar de todos os percalços tive uma infância feliz.

Notas: tampicross: fórmula 1 com tampas de garrafa em pista de areia.

24 de mai de 2010

A Gigia e o Renato

No meu último post escrevi sobre a Ana e o Zé Amalio. Também disse que eles eram os padrinhos de batismo do meu irmão Renato. Ficou escrito também que além do Renato, o Paulo fora batizado dessa forma. Bom o que eu quero escrever agora não é sobre batismo. Até porque não me lembro desse episódio e, para ser sincero nem sei se era nascido, já que o Paulo era um ano mais velho do que eu.
Mas eu me lembro da Gigia e do Renato, padrinhos dele. Gigia, não sei se esse é o verdadeiro nome dela, mas todos a chamavam assim.
A Gigia e o Renato formavam um casal muito extranho. Estranho na minha concepção, é claro. Ela devia ter o dobro da idade dele. Naquela época ela já era bem de idade. Formavam um casal extranho até no jeito de ser; ela era chefe, de tudo. Renato era um cara jovial, usava barba comprida e era muito trabalhador.
Eles tinha uma leitaria. Isso, tinham umas vaquinhas e vendiam leite. Eles entregavam leite de carroça, de casa em casa. Não existiam muitas opções para comprar leite naqueles tempos. Existia o leite "C", de saquinho, da nostalgica Cabanha Santa Fé, fora isso, o leite era vendido a granel, de porta em porta num tarro  de metal. Funcionava assim; funciona assim ainda hoje em muitas localidades, onde parece que o tempo não passa.
Eles moravam ali na Julio de Castilhos, próximo da igrejinha. Não sei se Gigia vive ainda, portanto, não poderia dizer se ela vive ali. Digo ela, porque o Renato e ela já não viviam juntos fazia muitos anos. Aconteceu uma tragédia com o Renato, ele sofreu um acidente automobilístico e perdeu uma perna. Não sei dizer como foi, mas sei que ele agora só tem uma perna. Mas anda bem de saúde.
A Gigia era uma pessoa bem legal, não era uma velha rabugenta, era uma pessoa de hábitos simples, mas ao mesmo tempo de certa forma exigente. O Renato igualmente, era bem humilde, trabalhador e de vez em quando até submisso a Gigia, a quem ele se dirigia de "mãe", porque embora fosse mulher dele, quem não conhecese, jurava que se tratava de mãe e filho.
O que eu quero dizer na realidade que a Gigia e o Renato eram diferentes da Ana e do Zé. Esses sim estavam presentes. Pelo menos antes de se separarem. Eu me lembro que uma das minhas tarefas de manhã bem cedo era buscar o leite lá na casa deles. Era todos os dias 2 litros de leite. Uma certa feita até acompanhamos o Renato apanhar as vacas em um campo que ficava de fronte a casa deles, até o lugar onde ele as ordenhava.
Além disso, passávamos na casa deles. Eles tinham um parreral, que quando ficava frutífero, uma de nossas brincadeiras era comer uvas a vontade até se encher. Era bem legal. Também, ali bem próximo de onde eles moravam, onde agora está completamente tomada por casas, havia um grande campo vazio; e de quando em quando vinha um circo e se instalava ali. A gente ia pra casa da Gigia, eu meu irmão Paulo e às vezes o Luiz, para depois fugirmos para circo, só para poder ver os animais.  Era muito divertido ficar olhando os macaquinhos, os leões, as girafas e outros bichos mais. Uma vez até chegamos a entrar, não sei quanto era o ingresso, mas me lembro muito bem que quem levava não sei quantas embalagens de leite Santa Fé, ganhava descontos. Lembro-me que o Luiz chegou com uma porrada delas, não sei de onde. Acho que eram oito saquinhos, mais uma quantia em dinheiro, não me recordo bem. Só sei disso: que nós entramos no circo. Eu não gostava dos briquedos, gostava dos bichinhos. Foi bem divertido. Naquele tempo os circos podiam ter animais, hoje está bem complicado, em virtude dos órgãos de proteção ao bicho. Eu acho correto. Embora eu gostasse de circo com animais, eu os prefiro no seu habitat natural ou, no máximo, em um zoológico, sendo bem cuidado, não maltrados, como num circo.
Mas voltando a Gigia e ao Renato não sei mais do paradeiro desses dois. O Renato, alguns anos atrás soube que estava morando na Vila Kennedy, bem de saúde, embora com uma perna. A Gigia, bom, essa nunca mais ouvi falar dela, não sei nem se vive. Imagina, aquela época, 93, ela já era velha, se vive quantos anos deve ter? Não sei. Só quero dizer que na época desses dois foi bem legal, principalmente para meu irmão Paulo, pois eles o queriam bem e gostavam muito dele. Bom, assim que deve ser.

18 de mai de 2010

O Batismo do Renatinho

A Ana era nossa vizinha lá Mutirão I. O Zé Amalio era seu marido. Ela é aquela do charque que comentei esses dias. Bah, naquele dia ela quase perdeu a carne do  feijão. Que sacanagem iam fazer com ela.
O que eu me lembro deles é voltado principalmente para aquela época, pois depois que nos mudamos dali, por volta de 94, praticamente a relação dela com a mãe se emiscuiu. Ela era uma pessoa alegre, estava sempre fazendo festa, contrastando com a nossa casa que era um silencio infernal, como se vivêssemos em regime de concentração. Bebia feito louca, cachaça. Era uma polaca alta e forte. Já o Zé era o oposto, era faquinho e baixinho; igualmente bebia muito; era uma concorrência grande entre esses dois. Tinha duas filhas, uma eu me lembro muito bem, a Adriana, da menor eu não me lembro nem do nome.
Quando fomos morar nessa região da cidade, ela foi a primeira amizade que minha mãe fez. O Zé inclusive por muitos anos trabalhou como ajudante do meu pai nas obras. Então havia uma grande união entre eles.
Essa aproximação deles fez com que a Ana se oferecesse para ser madrinha de batismo do meu irmão Renato, que na época contava com meses de idade. O convite foi aceito.
Sinceramente nunca entendi esse negócio de batismo na Igreja Católica. Para ser sincero, nunca fui católico, nunca aceitei seus sacramentos e duvido que eles tenham sido instituídos por Jesus Cristo. Respeito logicamente quem é dessa crença. Religião é um dogma, não precisa ser verdade. Cada um acredita naquilo que quiser. Entretanto, isso não interessa agora. Até mesmo porque eu acredito que minha mãe aceitou que Ana fosse madrinha de meu irmão mais para ele tivesse uma propriamente do que pela necessidade de que ele fosse batizado, pois ela nunca foi a uma missa sequer. Eu tambem nunca fui. Acho a Igraja Católica muito triste, até parece que estamos num velório; por outro lado não cultuo imagens. Como vou adorar uma coisa que pode ser feita por mim mesmo? Por fim, hoje agradeço por não ter sido batizado nessa Igreja. Na minha casa somente o Renato e o Paulo, mais ninguém. E podem ter certeza, se um dia eu tiver um filho, jamais irei batizá-lo, porque segundo se prega, batismo é para remissão de pecados. Criança tem pecados? Criança é inocente e só uma pessoa muito burra para crer que apenas batizando é que ela "entrará no céu". Claro, isso para quem acredita em religião. 
Voltando um pouco ao batismo do meu irmão, lá estávamos nós, naquela igrejinha na Vila Kennedy, esquina da Gustavo Guimarães com Júlio de Castilhos, a Igreja Sagrado Coração de Jesus. Sinceramente, não me lembro de nada que o padre falou; falava tão baixinho que acho que ninguém escutou. Mas o que eu me lembro é da água em cima da cabeça criança e do choro logo após. Esse era o batismo. Era uma coisa tão simples que me fez pensar se realmente era necessário; não seria melhor as pessoas simplesmente dizerem que são padrinhos e madrinhas, do que fazer todo aquele processo? Não sei. Talvez quisessem guardar o memento para sempre. 
Para mim, o melhor veio depois do batismo. Uma galinhada. Oh, que comida bem boa.
Infelizmente, esse dia não poderia terminar bem. Depois da galinhada, meu pai e a Ana discutiram ferozmente e foram dormir de mal. Vai entender essa gente. Em pouco tempo foram de euforia, alegria e até uma certa religiosidade para uma troca de ofensas sem tamanho. Sei lá são todos loucos eu acho. Mais um motivo para eu descrer nessas festas religiosas. As pessoas são muito falsas. Ora estão de bem, ora estão de mal e brigam por qualquer bobagem. Que fé é essa? Fé só em dias de festa, natal, páscoa, dia de batismo, etc, depois passa, volta-se tudo ao normal. Essa falsa religiosidade que me incomoda.
Tudo bem, passou. Ficaram de bem e amigos por muitos anos, até a gente ir embora de lá.
Poucos anos atrás, nas andanças com meu amigo Mendes, outro que era pinguço, encontrei a Ana. Só ela; o Zé nunca mais vi. E ela continuava do mesmo jeito, embora quase 15 anos mais velha.
O que eu trago de proveito disso tudo pra minha vida? Nada. Esse batismo não significou absolutamente nada para mim. Nem para quem deveria, o Renato, que fora contemplado pelo gole de água. Digo nada porque sinceramente eles nunca se imporataram muito com meu irmão, ruindo por terra talvez o maior sentido desse batismo, onde a madrinha seria uma espécie de segunda mãe. A Ana nunca se importou com o meu irmão, nunca deu um afeto sequer. Passou vários anos longe dele. Foi vê-lo somente no momento mais indesejado, foi no dia em que ele fora sepultado em 2004, já era tarde demais. Ela chorou. Foi pura falsidade. Eu não posso chorar por alguém que não tenho afeto. Infelizmente eu sou assim.  

13 de mai de 2010

Toca-Discos

Há pouco tempo escrevi sobre a televisão, a maravilha que ela tinha nos proporcionado. O mundo novo que nos trouxe, o qual até então desconhecíamos totalmente.
Mas muito antes de ter televisão em casa, reinava um velho toca-discos. Creio que foi daí que peguei paixão por esses aparelhos. Até hoje, em pleno 2010, na era do MP3, MP4, MP5, celulares com tocadores, músicas "online", por incrível que possa parecer eu tenho um desses em casa. Claro, não igual àquele, que só tive dois, esse e anos mais tarde um outro. Mas eu tenho um apego especial por esses toca-discos e acho que o gosto vem dessa época. Não é dificil eu chegar em casa e colocar um Leonardo Favio, Manolo Otero ou um Los Iracundos a girar a ficar admirando a velha caixa e o som tão particular que só ela produz. Não há dinheiro que pague isso: a satisfação. Não há tecnologia que mude isso; é que nem gostar de carro antigo, está no sangue.
Voltando um pouco no passado, o toca-discos era um dos pucos aparelhos eletrônicos que possuíamos em casa. Era um aparelho feio, portátil de cor vermelha (mas também existem de outras cores, mas vermelho era mais comum). Era uma espécie de maleta. Para escutar tinha-se que abrí-lo e engatar os fios da tampa que continha um auto-falante e servia de caixa de som.
Aquilo sonava todo o dia. Eu me lembro que a agulha devia ser trocada de vez em quando porque ficava gasta e o aparelho não funcionava direito. Mas era bacana.
A mãe tinha uns discos que eu nem me lembro mais quais eram. Sei que eram muitos. Lembro-me que certa vez derrubei-os de cima do armário. Vários deles ficaram imprestáveis. Nesse dia teve bronca sem sombra de dúvida.
Havia os discos grandes de 4 ou 5 músicas de cada lado e os compactos, os duplos e simples, com duas e uma música de cada lado, respectivamente. Depois esse aparelho estragou e tivemos vários outros, mas igual a esse só por volta de 97, mas logo foi substituído por outros aparelhos mais modernos. Entretanto, a minha afeição por eles continua até hoje. Ah, que vontade de escutar Leonardo Favio. 

10 de mai de 2010

O Novo Temporal Santa Rosa

Tempos atrás escrevi algo aqui sobre temporal Santa Rosa. Escrevo porque isso fez parte da minha infância. Até certo ponto acho legal esse tipo de coisa. Às vezes acho que as pessoas devem crer em alguma coisa para dar certo sentido à vida. Algumas pessoas realmente acreditam nisso. Ainda mais se pegarmos antigamente pessoas sem muita instrução, o pouco que aprendiam era em casa com a própria família. Então existia essas crendices. Existia o Santa Rosa, o Santo Antônio, entre outras coisas mais. Sempre com um nome de algum santo, por causa da grande influência da Igreja Católica. Então quando eu falo "existiu um certo Santa Rosa" muitas pessoas riem de mim, principalmente os mais novatos. Eu convivi com isso, mas já faz tempos que não ouço ninguém mais comentar sobre o assunto.
No início dos anos de 90, nós já morando ali no Mutirão I (Coj. Habitacional Fernado Corrêa Ribas), voltei a conviver com um desses. Pelo menos se dizia que era o tal do Santa Rosa. Nessa época meu pai trabalhava como esquilador na zona rural do município (naquele tempo se esquilava com tesoura manualmente, hoje existem máquinas que fazem todo o serviço), então ficávamos sós, minha mãe, eu e meus irmãos menores. De vez em quando o Dairi ficava para acompanhar (Dairi, o Eterno, existe até comunidade no Orkut que fala do homem). Mas o Dairi era um pinguço, bebia pra caramba. Ia bêbado, caia no sono e não via nada. Era como se estivéssemos sós em casa.
As portas da casa eram de madeira e não eram pintadas, então elas inchavam em dia de muita chuva. Minha mãe estava grávida, eu acho que da Sheyla. Então tinha a maldita porta dos fundos que não fechava de jeito nenhum, ninguem naquele dia havia conseguido, nem o Dairi.
Naquele dia elas passaram o tempo todo falando no tal Santa Rosa, a mãe e a nega Patricia. Engraçado que eu nunca me esqueço dessa mulher que morava ali nas redondezas, apesar de ela fazer um bolo frito horrível, que só de pensar me embrulha o estômago. Fora a primeira e acho que a única vez que comi torta frita com cebola. Talvez seja por isso que eu nunca esqueçi dela, apesar de nunca mais tê-la vista depois de 94. Ou talvez também pode ser por causa do charque. Isso porque no dia do tal temporal, havia um pedaço de charque dependurado em um varal na casa da Ana, a nossa vizinha e a Nega estava quase pegando o tal charque. Imagina, que cena. Mas não pegou, a chuva veio antes. A Patricia foi embora e o charque ficou esquecido naquele temporal que se aproximava. E o Dairi não chegava nunca e a mãe já estava amendrontada. 
Mas aquela noite prometia. Já era tarde, o Dairi chega num porrão danado e para piorar todo molhado. Minha mãe emprestou-lhe roupas do pai e ele foi dormir, no sofá da sala. Ali ficou, a noite inteira sem dar um suspiro.
Conforme entrava a madrugada, o tempo só piorava, era trovoada, relampejada, estrondos assustadores e frio. O quarto onde dormíamos eu e Paulinho ficava mais ou menos uns três metros da dita porta e, pra nosso desespero nosso quarto não tinha porta, então podíamos ver tudo que acontecia na cozinha. Inclusive o clarão que entrava pela fresta da porta. Era um cagaço atrás do outro. A porta estava calçada apenas com uma pá, nada mais para segurá-la.
Já pelas altas horas da madrugada a portinha não aguentou o forte vento e se abriu. Levei um tremendo susto. O Dairi nem se coçou. Quem dera, o alcool ainda estava em seu sangue. A primeira coisa que pensei foi...gritar é lógico. Gritei bem alto: "mãe a porta dos fundos se abriu". Umas três vezes até que ela se levantou e foi fechar a porta.
Nunca tinha visto coisa tão descomunal. A porta que durante o dia ninguém conseguira fechar, lá estava trancadinha e chaveada. Impressionante. Isso me faz crer que a maior parte de nossas forças não está nos músculos, mas sim  na quantidade de força psicológica que lhes proporcionamos. Minha mãe naquele dia provou isso, mesmo estando gravida de vários meses não se amedontrou e foi lá e fechou o "infechável".
A partir dali dormimos tranquilos e serenos e no outro dia perguntamos para o Dairi se ele tinha visto alguma coisa e por incrível que pareça, não viu nada. Que coisa.

5 de mai de 2010

O Vaca

O que eu vou escrever agora é uma coisa que me encomoda muito e vou escrever coisas pesadas. Por favor, quem não estiver a fim de ler nenhum desabafo e alguns sentimentos de vingança pare por aqui, não siga.
Não me sinto bem em escrever sobre essa pessoa. Mas tenho que falar sobre ela, é inevitável. Vaca, este era o apelido dele. Seu nome verdadeiro era Carlos Alberto. Ele era primo da minha mãe, a mãe dele era irmã do meu vô Jaime, a Dona Zilma. O pai dele era o Delmiro. Existia uma expressão muito famosa antigamente que dizia: "Delmiro, Delmiro, el Vaca, tu hijo casi mató mi hijo". Era muito engraçado. Isso porque o Vaca bateu num filho de um castelhano amigo da familia e ele foi queixar-se para o Delmiro.
Várias são as teorias para o apelido dele. Todas de mau gosto. O Vaca era baita de um mentiroso. Sempre dizia que pegava a fulana, a beltrana, que tinha filhos espalhados por toda a cidade. O apelido dele mostra que é completamente contrário do que ele afirmava.
Uns diziam que o apelido era esse porque quando jovem ele gostava de fazer a "vaquinha", uma "brincadeira" de meninos na época dele. Outros diziam, e davam o mesmo motivo, que quando ele fazia tal "brincadeira", gemia feito uma vaca. Daí o apelido de Vaca.
Mas o que eu quero falar aqui não tem a ver com sua opção sexual. Isso não é da minha conta. Até mesmo porque conheci duas de suas mulheres: a Eva e a Ângela. As outras que ele tanto falava não conheci.
Entretanto, quando o Vaca me vem a memória, sou tomado de nojo e cólera. Eu me lembro do Vaca desde muito pequeno. Até o inicio dos anos noventa a amizade dele e de meu pai era meio de longe. Porém, a partir de quando nós nos mudamos para a Vinte e Sete de Janeiro, eles começaram a ficar mais íntimos. Ele sempre teve bar. Até essa época o bar ficava no Cerro da Pólvora e meu era frequentador assíduo. Vendia de tudo quanto é trago, mas principalmente cachaça. Nesse tempo meu pai já era da pinga. Mas depois que cresceu sua amizade com o Vaca, parece que foi de mau a pior. Era um porre todos os dias. Foi assim durante anos, até que adoeceu, por volta dos anos dois mil. Perdeu todos os empregos por causa da maldita cachaça.
O problema não era meu pai ser cachaceiro, que por isso o Vaca não tinha culpa. Mas ele era sem vergonha e tinha interesses. Queria destruir meu pai, principalmente. Talvez tivesse inveja, sei lá. Ele ofercia canha de graça, isso quando não vendia a preços esorbitantes. Depois de tomar umas, meu pai já nem sabia quantas tinha bebido. Meu pai pedia duas, ele apontava quatro no caderninho dele. Isso era fiado, deixando assim o "véio" sempre amarrado com ele; foi que se tornou uma bola de neve sem fim. Ficou devendo um caminhão de dinheiro para o Vaca. Minha mãe era uma infeliz, nunca contrariava. Deixou o Vaca destruir a vida deles. Tanto que em 95 ele "comprou" a nossa casa, ficamos praticamente na rua. Foi tirando todo o pouco que tínhamos até então, por conta da burrice de meu pai e a complaçência da minha mãe. Eu era muito pequeno, não podia fazer muita coisa.
Mas na medida que fui crescendo, jurei para mim mesmo que o derrubaria em pouco tempo. Para isso eu fazia pequenas coisas, como por exemplo, furtar-lhe mercadorias de seu armazém. Ou ainda, como ele comprava sucata, vendia-lhe a sucata super-faturada, latinhas com areia dentro, modificava os pesos da balança e depois para piorar furtava-lhe a sucata e vendia de novo. Pura sacanagem. Mas não resisti muito tempo nesse ritmo. Eu era uma ameaça para ele. Ele tratou de levar-me para seu lado. Conseguiu. Por sua culpa envolvi em muitas bobagens. Coisas que jamais teria feito sem sua influência, como fumar e beber tão cedo.
O certo que é me dei conta da burrice que estava fazendo, afastei-me desse "diabo" o mais cedo possivel. Larguei todos os vícios e mudei de estratégia. Ao invés de lutar contra ele, a partir dali lutaria por mim. Deu certo tudo melhorou para mim. Conquistei tudo que necessitava. Dei adeus a convivência desse monstro e parti para bem longe e nunca mais falei com, apenas uma única vez, que consegui dar-lhe uns tapas.
O Vaca morreu em 2006, na mais extrema miséria, sem ninguém por perto, fazendo valer aquele ditado que diz que "aqui se faz, aqui se paga". É verdade.
Não sou daqueles idiotas que depois que a pessoas morre ficam boas. Para mim mesmo morto ele continua um traste.
Algumas pessoas me perguntam se eu culpo o Vaca pelos problemas de minha infância. De todos não, mas de alguns. Com treze anos eu pus o primeiro cigarro na boca e provei o primeiro porre. Foi culpa dele. Hoje não fumo mais e me controlo na bebida, mas naquele época eu era muito jovem pra isso, eu me influenciava muito. O Vaca não foi culpado por todos os meus problemas, claro que não, mas que teve participação em boa parte deles, isso sim. Inclusive nas brigas com meu pai. A gente brigava muito e o Vaca incitava os dois lados. Por isso eu digo: "o Vaca foi a pior droga que me apreceu". Foi uma pessoa que veio ao mundo apenas para fazer o mal. Por bem morreu, não poderá mais fazer mal algum a ninguém. Também sofreu bstante. Assim tem que ser. Quem faz o mal, tem que sofrer.

30 de abr de 2010

A Primeira Televisão

Até sairmos do Cerro, os únicos meios de entretenimento que tínhamos era um rádio, onde a mãe escutava a Rádio Cultura e um toca-disco, onde rolavam sempre os mesmos discos como Carlos Alexandre, Amado Batista, Teixeirinha, Gildo de Freitas, Sidney Lima, entre outros sucessos da época. Não tínhamos TV em casa. Eu nem fazia ideia do que vinha ser uma televisão.
Naquela época, fins dos anos oitenta e inicio dos noventa, ter uma televisão em casa era luxo para poucos. Ainda era difícil ter uma televisão. Acho até que era difícil de se ter qualquer bem considerado durável, pois estes custavam muito dinheiro e conseguir comprar parcelado era relativamente impossível. Era a época da superinflação, a desvalorização ocorria de um dia para outro. Não tinha dinheiro que desse. Lembro-me até que diziam que tinha que levar um quilo de dinheiro para comprar um quilo de arroz, tamanha a desvalorização. Chegava a ser cômico. Todos os dias os preços mudavam na prateleira do armazém - ah, naquela época se comprava em armazém, não em grandes supermercados de hoje - a função de demarcador de preço nunca fora tão importante.
Para piorar ainda mais a situação teve os planos mirabolantes de Fernando Collor, tomando conta das cardenetas de poupança da população. Quem tinha dinheiro no banco, se corrigia, mas não podia gastar, quem tivesse debaixo do colchão, até podia gastar, mas de um dia para outro perdia boa parte de seu poder de compra. Era uma época de loucuras. Até hoje não fcou bem esclarecido o "impeachment" de Collor. Acredito que seja por isso e não por causa daquela Elba. Mexer no dinheiro da classe média é mexer com enxame de abelhas. Bom isso já é outro assunto.
O que eu quero falar agora é sobre a televisão. Quando nos mudamos para a casa nova, uma novidade havia surgido: a tal da televisão. Antes disso eu deconhecia televisão, não entendia o que realmente ela fazia. Minha mãe sempre olhava as novelas dela, mas na casa dos outros vizinhos. Nossa própria TV nunca tivéramos.
Mas recordo que uma vez cheguei em casa e deparei-me com esse objeto, que mais parecia uma caixa rústica. Era uma televisão, das bem antiga, talvez da década de setenta. Era feita de material compensado, devia ter uns oitenta centímetros de largura por uns cinquenta de altura e uns trinta de fundos, deitada parecia um caixão. Era preto e branco. Era o que se chamavam de TV a válvula, às vezes tinha que esperar aquecer para funcionar. Ah, tinha o "seledonho", a chave de trocar canal e uma antena interna de duas varetas de alumínio. Às vezes a imagem era tão ruim que minha mãe colocava um pedaço de Bombril para ver se melhorava, ah, molharava sempre.
Aquilo para nós era uma maravilha, parecia que o mundo tinha entrado em nossa casa. Todos os parentes da minha mãe iam lá em casa para olhar a novela. Hoje só me resta a nostalgia daquela boa época. Lembro-me como fiquei maravilhado ao ver pela primeira vez aquelas imagens se movendo dentro do aparelho. Certa vez pensei em até entrar para dentro e participar junto com os personagens. Lembro-me do primeiro programa, o Chaves (El Chavo del Ocho), que maravilha, esburralhava os olhos e não pensava em mais nada e ali ficava, em devaneios com aqueles personagens todos.
Entretanto, até hoje quando eu me lembro  dessa época, vem-me à memória a TV Manchete, inexistente nos dias atuais. O Chaves até poderia ser meu programa preferido naquela, mas na programação geral nenhuma emissora ganhava da extinta Manchete. Lembro-me que eu me levantava bem cedo e não perdia nenhum episódio do Jiraya, do Jaspion (aquele homem de ferro com seu robô gigante), os Changeman (acho que foram os antecessores dos Power Rangers), ainda tinha os Flashman e os ThunderCats. Isso era o máximo. Não sei se é porque eu era criança ou porque os pragramas voltados ao público infantil naquela época eram realmente melhores que os atuais. Não sei. Só sei que o fascinio que eu tinha pela televisão nesse longíquo tempo não tenho nos dias atuais, mesmo tendo uma gana de canais de boa qualidade. Hoje não consigo mais perder tempo na frente da televisão. E olha, se for comparar com aquela época, a evolução é estrondosa. Hoje faço tudo sentado, usando controle remoto, com mais de duas centenas de canais a disposição em vários idiomas e em alta definição; naquela época era uma televisão do tipo acima citada, preto e branco e cada vez que tinha que mudar de canal fazia aquele barulhinho particular tipo "troc troc" do famoso "seledonho". Quanta diferença e ao mesmo tempo quanta saudade.

28 de abr de 2010

O Luiz e os outros irmãos

Quando iniciava década de 1990, nós éramos cinco irmãos, todos do sexo masculino, Luiz, Paulo, Leandro, Renato e eu. Minha mãe estava grávida de sua primeira menina, que nasceria em abril daquele ano, a Pérola. Mas morávamos em casa apenas os quatro mais novos, o Luiz morava com a vó Maria. Eu me lembro que a vó Maria morava próximo da nossa casa, na rua Quinze, um pouco mais acima.
Mas o que eu quero falar agora é que o Luiz era uma pessoa a parte em nossa convivência. Nós nunca convivemos da maneira como os outros irmãos vivem, juntos. Ele sempre morou fora de casa.
Não sei se era algum tipo de preconceito, talvez impregnado sem querer na cabeça de meu pai, mas o certo é que ele viveu assim, alheio a nossa vida cotidiana.
Digo preconceito porque o Luiz é o único filho da minha mãe que não é filho também de meu pai. Quando meus pais se casaram, ele já era nascido. Fruto do envolvimento anterior de minha mãe com o Silvio, o Silvio Santos, não o da TV, mas um de Jaguarão. Igualmente famoso. O Silvio era o garanhão da sua época, "pegava todas", principalmente quando jovem, quando ainda tinha alguns trocados, podia esbanjar. Mas morreu na miséria, sem ter sequer onde morar.
Voltando ao Luiz, em virtude disto, eu acho que ele era muito maltrado pelo meu pai, por não ser seu filho. Em uma dessas feitas, contava minha mãe, que ele deu de relho no Luiz; diz até que teve que levá-lo ao hospital, tamanha fora a surra. A partir daí a vó Maria levou-o para que morasse com ela. Desde então ele nunca mais voltou para casa, tendo saído da casa dessa vó e ido morar na casa da outra, a Ieda, no início dos anos 90, quando estava chegando a adolescência e queria um pouco de liberdade. Conseguiu. Tanto que se envolveu com pessoas que não deveria e fez coisas piores ainda. Mas isso faz parte do passado. Ele morou com ela até alcançar a maioridade, quando resolveu morar sozinho. Hoje talvez ele nem se lembre muito sobre isso, já que vive uma vida normal em sua casinha em cima do Cerro. Às vezes é melhor deixar o passado em seu devido lugar: esquecido no passado. É isso que ele faz; e faz muito bem. Só eu fico lembrando o passado, remoendo tristezas, problemas e dores como se isso estivesse sempre presente na minha vida. Ele está certo, vamos deixar as angústias para trás.


27 de abr de 2010

A mudança

Depois daquela tragédia que foi a morte do Aldirio, ficamos pouco tempo residindo no Cerro, logo nos mudamos dali. Minha mãe já dera a luz ao meu irmão Renato, que ficou marcado com aquele episódio trágico.
Mudamos para o que à primeira vista se chamou de Mutirão. Eram casas de alvenaria construidas por funcionários da Prefeitura, em forma de mutirão, daí o nome. Meu pai naquela época prestava serviços à Prefeitura, por isso fora agraciado com uma daquelas.
De início a casa já surpreendia. Só a sala e cozinha, juntas, era maior que toda a casa em que nós morávamos no Cerro. Lembro-me que casa possuía sala, cozinha, um quarto e um banheiro, todos amplíssimos. Logo em seguida foi construído um quarto menor, onde dormiámos Paulinho e eu. Nessa época já éramos cinco irmãos, Luiz, Paulo, eu, Leandro e Renato. O Luiz morava com a vó Maria. O Leandro que na época tinha uns dois anos e o Renato que acbara de nascer dormiam no quarto com a mãe.
Era uma alegria única. Não tão grande para minha mãe que tinha deixado o convívio de todos seus familiares no Cerro, mas nossa, pela casa nova e do  velho que parecia criança com sua bicicleta nova. 
Nós indo embora do Cerro, tornamos-nos os primeiros da familia da minha vó Ieda (mãe da minha mãe) a abandonar o lugar. Mas forámos para um lugar bem melhor, é verdade. Bom, minha mãe nunca se conformou com isso, pois até hoje ela reclama. São coisas da vida.
Mas voltando àquela época, foi uma mudança incrível, o pouquinho de coisas que tínhamos coube em três viagens. Mas viagens de charrete. Mas eram tão poucas as coisas mesmo, que numa dessas viagens, viemos todos em cima da carroça do Seu Seledonho. Sim, esse era o apelido do velho cherreteiro, nunca soube o nome daquele cara. Dizem que era João, mas não sei com certeza. Para ser sincero nem sei se ele vive ainda, porque naquela época ele já era muito velho.
As coisas eram mais ou menos assim: um armário de madeira (naquela época móveis eram feitos de madeira de pinho, na sua maioria), um fogão a gás, um fogão a lenha, uma mesa grande de madeira, feita pelo meu pai, dois bancos grandes, também feitos por ele, duas camas com seus respectivos colchões, um guarda-roupa, um toca-discos e alguma quinquilharia a mais que eu não me lembro. Demo-nos conta que isso não era nada para nova casa, ficando vários espaços vazios.  
Porém, para a alegria da minha mãe, logo eles compraram um quarto novo. Era surpreendente, cama, roupeiro, cômoda com espelho, dois criados mudos e colchão novo. A mãe era só alegria. Até se esqueceu da gente dela que ficou no Cerro. Eu me lembro até da cor dos móveis novos: era marfim.
Apesar da tristeza da minha mãe por ter ficado longe da gente dela, essa casa ficava aproxidamente dois quilômetros do Cerro, talvez nem isso, pois ficava ali na tangente do bairro Kennedy, entre as ruas Quinze de Novembro e Vinte e Sete de Janeiro.
Como disse convenciou-se chamar de Mutirão, conforme iam surgindo, I, II, III e IV. Entretanto o nome dos três primeiros, que ficam no bairro Kennedy é Conjunto Habitacional Fernando Corrêa Ribas. Uma homenagem nada mais justa a um maiores nomes da politica jaguarense, que deu início a construção desses tipos de habitação, que por longos anos foram os únicos empreendimentos do gênero na Cidade Heróica.
Infelizmente, nós só ficamos morando nesse local até o ano de 94, quando meu pai cometeu, a meu ver, o maior erro da sua vida; mas isso é assunto para mais tarde.

22 de abr de 2010

Cerro da Pólvora

Vista da cidade de Jaguarão do Cerro da Polvora, mirante natural da cidade
Foto/Divulgação de Internet

Pouco me lembro do Cerro de antigamente. Quase nada para ser sincero. É a parte mais elevada da área urbana. De lá é possivel ver boa parte do centro da cidade, do rio e da cidade uruguaia de Rio Branco.
Mas da época em que eu vi lá, de 84 a 89, até os dias atuais muitas coisas mudaram. O Cerro é o que chamamos de crescimento desorganizado de uma cidade. Não que Jaguarão seja uma metrópole, nada disto. Mas com o exôdo rural, que se sucedeu em quase todas as cidades brasileiras, muitas pessoas que vinham tentar a vida nas cidades, deparavam-se com a falta de infra-estruturas que as mesmas ofereciam. Com a Cidade Heróica não foi diferente. As pessoas vinham e se amontovam em cima do Cerro. 
Muito se discute, hoje mais pacificado, de quem são aquelas terras onde vivem as pessoas, se da Prefeitura ou do Exército. Algum tempo atrás a Prefeitura estava cadastrando os moradores de lá para regularizar os lotes; não sei se isso vingou.
Não sei muito certo o que originou esse nome. Se foi o fato de o Exercito ter se instalado lá por muito tempo (Enfermaria Militar) ou porque se extraíam muitas pedras de lá, dinamitando inclusive, não sei. Cerro porque é alto, Pólvora, por um desses motivos.
O certo é que até hoje me dá uma nostalgia quando vou ao Cerro, volto alguns anos atrás quando eu me cagava de medo de cair naquelas crateras que há por lá, crateras onde até hoje é possível ver um morador solitário ainda extraindo algumas pedinhas para tentar sobreviver. Há duas grandes canteiras (crateras) no Cerro e as casas das pessoas ficam mais ou menos em volta, formando um grande círculo. As casas por lá são mal distribuídas, em uma desorganização sem fim. Alguns anos atrás a prefeitura expulsou alguns moradores que tentavam construir casa bem a berada das crateras. O motivo fora que seria perigoso. Mas ainda hoje existem muitas casas praticamente do lado, questão de alguns metros. Ou seja, o perigo continua. Há locais onde a profundidade pode ser de três metros.
Infelizmente, nenhum governante até agora conseguiu fazer alguma coisa que melhorasse de verdade a vida de quem por lá mora. Nada. Só promessas em ano eleitoral e depois esquecem que lá moram boa parte de nossos co-cidadãos jaguarenses.
Poderiam transformar o Cerro em um ponto turístico a mais da cidade. Um motivo por si já bastaria. É um mirante natural de nossa cidade. É possivel de lá ver toda a área central da cidade, ainda deleitar-se em observar o Rio Jaguarão e boa parte da cidade vizinha de Rio Branco.
Isso sem contar as Ruinas da Enfermaria (que querem transformar em museu), a imagem do Cristo. Ou seja, o que falta mesmo é força de vontade.
Espero que se deem conta disso e revitalizem aquela área tão importante de nossa cidade para os cerrenses tenham uma vida mais digna e possam sim se orgulhar de ter vivido lá.

20 de abr de 2010

O assassinato

Poucas coisas marcaram mais a minha vida do que isto que descrever agora. Muitos acreditam que eu minto, pois não poderia saber de tantos detalhes assim, tanto tempo depois, principalmente tendo tenra idade.
No entanto, o que vou contar a partir de agora não é mentira; não é fruto da minha imaginação e as coisas realmente aconteceram, com todos esses detalhes. Nada acrescentado. Foi um dos últimos acontecimentos, e mais marcante também, da minha vida inicial no Cerro da Pólvora.
Era início do ano de 1989, verão, minha mãe estava grávida de meu irmão Renato. Vivia conosco naquela época, o Aldirio (tio de meu pai, irmão da minha vó Maria). Aldirio já era um homem de idade. Lembro-me pouco de seu rosto, lembro-me, porém, que ele era calvo. Nunca esqueço de sua WV Kombi azul, que eu nunca soube o fim que ela teve. Lembro-me também que todos os dias que ele chegava, presenteava-nos com pacotes de bala de goma e pipoca doce, era uma delicia. Quando ele chegava com isso era uma festa só. Parecia ser um bom homem. Apenas parecia. Era um homem mau. Já tinha cometido vários crimes, inclusive um assassinato.
Como disse, minha mãe estava grávida, prestes a dar a luz. Morávamos, como já foi dito, no mesmo lugar, no Cerro. Não me lembro exatamente como era a casa, mas me lembro que eram dois quartos, sala/cozinha juntos e o banheiro era na rua. Isso mesmo, o banheiro ficava na parte de fora da casa.
Lembro-me que era noite. Minha nãe fora na rua colocar a erva do mate fora. O Aldirio foi logo em seguida. Todos imaginaram que ele fosse ao banheiro. Mas não. Em seguida minha mãe volta da rua assustada. Logo após Aldirio vem com uma faca em mãos proferindo um monte de besteiras, coisas do tipo "vou tirar essa criança de ti" e muitas outras coisas mais que não me lembro. E foi em direção à minha mãe, apontando a faca grande de cabo preto. Foi quando meu pai pegou uma pedra grande que estava próxima ao fogão a lenha e jogou-lhe na cabeça. Ele caiu no chão, mas ainda estava vivo. Então meu pai pegou o machado e desferiu-lhe muitas machadadas no peito. Muitas, não sei quantas. Fiquei apavorado; quando vi aquele sangue todo jorrando pelo chão, nem sabia onde me esconder. Juro que fiquei assustado. Fora a primeira vez que vi alguém morrer, ainda mais dessa maneira.
Depois disso fomos, minha mãe, meus irmãos e eu para casa da minha vó, que ficava próxima. De lá vi a comioneta dos bombeiros levar o corpo. Por incrivel que pareça chegou ao hospital ainda vivo. Foi mandado direto para Pelotas, mas não resistiu, morreu. Nunca mais se soube dele. Dizem até que fora enterrado como indigente. Com meu pai nada aconteceu. Abriram inquérito, mas nunca se chegou a uma conclusão. Lá pelos anos dois mil e pouco, ele fora chamado na policia de novo. Mas encerraram o caso ali.
Chato foi chegar em casa depois daquele sucedido. Ficou algo ruim impregnado no ar. Era triste. Menos mal que em seguida fomos embora de lá e meu pai desmanchou a casa.
Atualmente as pessoas me perguntam o que particularmente eu penso sobre esse episódio. Uma coisa quero deixar bem claro, todo o ódio que senti pelo pai todos esses anos, nada tem a ver com esse episódio, tem a ver em outros motivos; eu no lugar dele teria feito a mesma coisa.

19 de abr de 2010

O dia em que a Rosa apanhou

Muitas pessoas me perguntam se a minha familia é composta de só de loucos. Eu concordo. Só tem loucos nessa familia - se é que dá pra chamar de familia - só loucos. Não como aquele cântico da torcida do Corinthians, que diz "que aqui tem um bando de louco", é muito pior. Existem vários tipos de loucura. Louco de feio, de bonito, de rico, de pobre, de ruim, enfim, vários. Tenho quase certeza que eu me encaixo em várias delas.
Mas eu tenho uma tia, a Rosa, mas ela não é louca como muitos dizem, ao contrário, ela é doente. Tem um retardo mental. Não tem noção do que faz. Hoje ela é mulher adulta, na faixa dos quarenta anos. Devido a esse retardo, muitas pessoas abusavam dela quando mais nova. Ela teve três filhos, digo teve, pois dois já faleceram, o Bazildo, inclusive, comentarei mais tarde.
O Alceni, meu pai, esse sim era louco. A Rosa, em virtude dessa deficiência, fazia várias coisas, que encomodavam todo mundo. Gritava, chingava, brigava, chorava; sempre que lhe faltava o remédio, o famoso Gardenal, acontecia isso. Era sempre assim, era só faltar o remédio, que lhe dava essas "loucuras". Ah, e como fumava, desde muito cedo.
Um dia daqueles, e lá se vão mais de vinte anos, pela primeira vez eu ouvi os griteiros da Rosa. Ainda morávamos no Cerro (no mesmo chalé), bem perto da minha casa, morava minha vó, pois era quem cuidava dela. Assim, cerca de cinquenta metros de distância. E a ela gritava, chorava, esbaldava-se em seus devaneios.
Fui para o pátio para ver mais de perto a situação e para matar minha curiosidade, quando de repente vi meu pai vindo com um relho na mão. Até me assustei, pois pensei que fosse comigo. Não era. Era com a pobre da Rosa. Nunca tinha imaginado aquela situação. Ao invés de parar, ela gritava e chorava ainda mais. E ele batia cada vez mais. Fora a primeira atrocidade que vi ou ouvi meu pai fazer. Ao longo desses anos vi muitas, e a cada uma meu ódio por ele só aumentava. Infelizmente ele nunca teve o meu respeito.

16 de abr de 2010

A morte do tio Milton

Anteriormente escrevi que algumas coisas ficam na nossa lembraça para sempre. Algumas são tão fortes que parecem que aconteceram recentemente. Porém, à memória não é possivel lembrar-se de tudo perfeitamente. O tempo apaga algumas coisas que o nosso cérebro considerada periférico para poder guardar outras mais importantes.
O que eu quero dizer é que me lembro vagamente da morte do tio Milton. Muito pouco sei sobre isso. Sei perfeitamente o que ocasionou a sua morte. E tem trazido transtornos à minha familia até os dias atuais. Uns dizem até, exageradamente é claro, que isso é um castigo de Deus. Não sei. Não creio muito nessas profecias malditas.
O Milton era o único filho macho da minha vó materna. Era o mais jovem também. Ele faleceu no fim dos anos oitenta. Tinha só quatorze anos de idade. Mas quis o destino, ou Deus, que nascesse com uma doença genética incurável. Até os dias atuais nenhum médico conseguiu decifrar ao menos a origem da doença, muito menos encontrar-lhe uma cura ou uma forma de neutralizá-la. Ainda não foi possivel isso.
Ele não foi o único. Mas foi o primeiro que conheci. Infelizmente, todos na minha familia e do sexo masculino. Isso tem colocado todos em alerta. Muitos de nós têm medo de um dia ter um filho assim.
Como disse, o Milton foi o primeiro, mas não o último. Depois dele vieram mais quatro: Paulo e Bazildo, já falecidos; também agora o Alexandre e o Leonardo. É triste, mas é assim que anda a vida, num ciclo sem fim. Ter alguém especial na família não é nenhum pecado. Não vou dizer que é uma benção, pois ninguém quereria, com certeza, estar nesta situação. Resta apenas aceitar e tentar entender.
Essa doença, que eu não sei o nome, pois nenhum médico ainda a diagnosticou com precisão, teve os mesmos sintomas em todos eles. Nasce normal. Demora muito tempo para dar os primeiros passos. O Alexandre, por exemplo, já estava com quase dois anos quando começou a caminhar. Geralmente tem as pernas tortas, o que impede caminhar normalmente, tem a barriga pra frente. Na maioria dos casos, todos até agora, com excessão do Paulo, afeta também o conhecimento deles, deixando-os como se fossem eternas crianças. Mas o pior de tudo não é isso. É que a doença com o passar dos anos vai se alastrando. Por exemplo, começa a caminhar tarde, mas depois de caminhar a pessoa vai perdendo mobilidade das pernas pouco a pouco, até deixar de caminhar de vez, por volta dos nove ou dez anos de vida.
A partir daí começa uma nova fase onde a pessoa só anda de cadeira de rodas, precisando mais do nunca da ajuda dos outros para se locomover. Pior ainda, os órgãos vão parando, até chegar naqueles considerados vitais. Aí não tem mais volta, infelizmente.
Como eu disse antes, não me lembro quase nada da morte do Milton. Só me lembro disto, de tê-lo visto em uma cadeira de rodas e depois, dentro de um caixão. Milton morreu com quatorze anos. A adolescência é crucial para essa doença. Ainda há muitas crianças para virem ao mundo através de minha família e a gente espera, sinceramente, que essa doença tenha ficado na geração passada.