Com los Recuerdos al hombro

FIQUE RICO SEM SAIR DE CASA

30 de abr de 2010

A Primeira Televisão

Até sairmos do Cerro, os únicos meios de entretenimento que tínhamos era um rádio, onde a mãe escutava a Rádio Cultura e um toca-disco, onde rolavam sempre os mesmos discos como Carlos Alexandre, Amado Batista, Teixeirinha, Gildo de Freitas, Sidney Lima, entre outros sucessos da época. Não tínhamos TV em casa. Eu nem fazia ideia do que vinha ser uma televisão.
Naquela época, fins dos anos oitenta e inicio dos noventa, ter uma televisão em casa era luxo para poucos. Ainda era difícil ter uma televisão. Acho até que era difícil de se ter qualquer bem considerado durável, pois estes custavam muito dinheiro e conseguir comprar parcelado era relativamente impossível. Era a época da superinflação, a desvalorização ocorria de um dia para outro. Não tinha dinheiro que desse. Lembro-me até que diziam que tinha que levar um quilo de dinheiro para comprar um quilo de arroz, tamanha a desvalorização. Chegava a ser cômico. Todos os dias os preços mudavam na prateleira do armazém - ah, naquela época se comprava em armazém, não em grandes supermercados de hoje - a função de demarcador de preço nunca fora tão importante.
Para piorar ainda mais a situação teve os planos mirabolantes de Fernando Collor, tomando conta das cardenetas de poupança da população. Quem tinha dinheiro no banco, se corrigia, mas não podia gastar, quem tivesse debaixo do colchão, até podia gastar, mas de um dia para outro perdia boa parte de seu poder de compra. Era uma época de loucuras. Até hoje não fcou bem esclarecido o "impeachment" de Collor. Acredito que seja por isso e não por causa daquela Elba. Mexer no dinheiro da classe média é mexer com enxame de abelhas. Bom isso já é outro assunto.
O que eu quero falar agora é sobre a televisão. Quando nos mudamos para a casa nova, uma novidade havia surgido: a tal da televisão. Antes disso eu deconhecia televisão, não entendia o que realmente ela fazia. Minha mãe sempre olhava as novelas dela, mas na casa dos outros vizinhos. Nossa própria TV nunca tivéramos.
Mas recordo que uma vez cheguei em casa e deparei-me com esse objeto, que mais parecia uma caixa rústica. Era uma televisão, das bem antiga, talvez da década de setenta. Era feita de material compensado, devia ter uns oitenta centímetros de largura por uns cinquenta de altura e uns trinta de fundos, deitada parecia um caixão. Era preto e branco. Era o que se chamavam de TV a válvula, às vezes tinha que esperar aquecer para funcionar. Ah, tinha o "seledonho", a chave de trocar canal e uma antena interna de duas varetas de alumínio. Às vezes a imagem era tão ruim que minha mãe colocava um pedaço de Bombril para ver se melhorava, ah, molharava sempre.
Aquilo para nós era uma maravilha, parecia que o mundo tinha entrado em nossa casa. Todos os parentes da minha mãe iam lá em casa para olhar a novela. Hoje só me resta a nostalgia daquela boa época. Lembro-me como fiquei maravilhado ao ver pela primeira vez aquelas imagens se movendo dentro do aparelho. Certa vez pensei em até entrar para dentro e participar junto com os personagens. Lembro-me do primeiro programa, o Chaves (El Chavo del Ocho), que maravilha, esburralhava os olhos e não pensava em mais nada e ali ficava, em devaneios com aqueles personagens todos.
Entretanto, até hoje quando eu me lembro  dessa época, vem-me à memória a TV Manchete, inexistente nos dias atuais. O Chaves até poderia ser meu programa preferido naquela, mas na programação geral nenhuma emissora ganhava da extinta Manchete. Lembro-me que eu me levantava bem cedo e não perdia nenhum episódio do Jiraya, do Jaspion (aquele homem de ferro com seu robô gigante), os Changeman (acho que foram os antecessores dos Power Rangers), ainda tinha os Flashman e os ThunderCats. Isso era o máximo. Não sei se é porque eu era criança ou porque os pragramas voltados ao público infantil naquela época eram realmente melhores que os atuais. Não sei. Só sei que o fascinio que eu tinha pela televisão nesse longíquo tempo não tenho nos dias atuais, mesmo tendo uma gana de canais de boa qualidade. Hoje não consigo mais perder tempo na frente da televisão. E olha, se for comparar com aquela época, a evolução é estrondosa. Hoje faço tudo sentado, usando controle remoto, com mais de duas centenas de canais a disposição em vários idiomas e em alta definição; naquela época era uma televisão do tipo acima citada, preto e branco e cada vez que tinha que mudar de canal fazia aquele barulhinho particular tipo "troc troc" do famoso "seledonho". Quanta diferença e ao mesmo tempo quanta saudade.

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