Com los Recuerdos al hombro

FIQUE RICO SEM SAIR DE CASA

10 de mai de 2010

O Novo Temporal Santa Rosa

Tempos atrás escrevi algo aqui sobre temporal Santa Rosa. Escrevo porque isso fez parte da minha infância. Até certo ponto acho legal esse tipo de coisa. Às vezes acho que as pessoas devem crer em alguma coisa para dar certo sentido à vida. Algumas pessoas realmente acreditam nisso. Ainda mais se pegarmos antigamente pessoas sem muita instrução, o pouco que aprendiam era em casa com a própria família. Então existia essas crendices. Existia o Santa Rosa, o Santo Antônio, entre outras coisas mais. Sempre com um nome de algum santo, por causa da grande influência da Igreja Católica. Então quando eu falo "existiu um certo Santa Rosa" muitas pessoas riem de mim, principalmente os mais novatos. Eu convivi com isso, mas já faz tempos que não ouço ninguém mais comentar sobre o assunto.
No início dos anos de 90, nós já morando ali no Mutirão I (Coj. Habitacional Fernado Corrêa Ribas), voltei a conviver com um desses. Pelo menos se dizia que era o tal do Santa Rosa. Nessa época meu pai trabalhava como esquilador na zona rural do município (naquele tempo se esquilava com tesoura manualmente, hoje existem máquinas que fazem todo o serviço), então ficávamos sós, minha mãe, eu e meus irmãos menores. De vez em quando o Dairi ficava para acompanhar (Dairi, o Eterno, existe até comunidade no Orkut que fala do homem). Mas o Dairi era um pinguço, bebia pra caramba. Ia bêbado, caia no sono e não via nada. Era como se estivéssemos sós em casa.
As portas da casa eram de madeira e não eram pintadas, então elas inchavam em dia de muita chuva. Minha mãe estava grávida, eu acho que da Sheyla. Então tinha a maldita porta dos fundos que não fechava de jeito nenhum, ninguem naquele dia havia conseguido, nem o Dairi.
Naquele dia elas passaram o tempo todo falando no tal Santa Rosa, a mãe e a nega Patricia. Engraçado que eu nunca me esqueço dessa mulher que morava ali nas redondezas, apesar de ela fazer um bolo frito horrível, que só de pensar me embrulha o estômago. Fora a primeira e acho que a única vez que comi torta frita com cebola. Talvez seja por isso que eu nunca esqueçi dela, apesar de nunca mais tê-la vista depois de 94. Ou talvez também pode ser por causa do charque. Isso porque no dia do tal temporal, havia um pedaço de charque dependurado em um varal na casa da Ana, a nossa vizinha e a Nega estava quase pegando o tal charque. Imagina, que cena. Mas não pegou, a chuva veio antes. A Patricia foi embora e o charque ficou esquecido naquele temporal que se aproximava. E o Dairi não chegava nunca e a mãe já estava amendrontada. 
Mas aquela noite prometia. Já era tarde, o Dairi chega num porrão danado e para piorar todo molhado. Minha mãe emprestou-lhe roupas do pai e ele foi dormir, no sofá da sala. Ali ficou, a noite inteira sem dar um suspiro.
Conforme entrava a madrugada, o tempo só piorava, era trovoada, relampejada, estrondos assustadores e frio. O quarto onde dormíamos eu e Paulinho ficava mais ou menos uns três metros da dita porta e, pra nosso desespero nosso quarto não tinha porta, então podíamos ver tudo que acontecia na cozinha. Inclusive o clarão que entrava pela fresta da porta. Era um cagaço atrás do outro. A porta estava calçada apenas com uma pá, nada mais para segurá-la.
Já pelas altas horas da madrugada a portinha não aguentou o forte vento e se abriu. Levei um tremendo susto. O Dairi nem se coçou. Quem dera, o alcool ainda estava em seu sangue. A primeira coisa que pensei foi...gritar é lógico. Gritei bem alto: "mãe a porta dos fundos se abriu". Umas três vezes até que ela se levantou e foi fechar a porta.
Nunca tinha visto coisa tão descomunal. A porta que durante o dia ninguém conseguira fechar, lá estava trancadinha e chaveada. Impressionante. Isso me faz crer que a maior parte de nossas forças não está nos músculos, mas sim  na quantidade de força psicológica que lhes proporcionamos. Minha mãe naquele dia provou isso, mesmo estando gravida de vários meses não se amedontrou e foi lá e fechou o "infechável".
A partir dali dormimos tranquilos e serenos e no outro dia perguntamos para o Dairi se ele tinha visto alguma coisa e por incrível que pareça, não viu nada. Que coisa.

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