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Picada Nossa de Cada Dia

Picada é um dos nomes de um pequeno arroio afluente do Rio Jaguarão. Ao logo de sua águas, dependendo do lugar, tem um nome diferente. Pode Arroio Lagoão, Passinho da Areia, Ponte Quebrada e, claro Picada.
A parte que se chama Picada é a parte que fica atrás da Vila Kennedy, cerca de meia hora a pá da Vila, onde existem muitas plantações de arroz.
Não sei porque tem esse nome. Talvez seja porque picada significa, segundo o Dicionário de Língua Portuguesa Aurelio Buarque de Holanda, um caminho estreito aberto na mata a golpes de facão. talvez seja por isso. Mas não acredito muito. Esse nome foi dado pela gurizada; e a gurizada não pensaria nisso. Talvez tenha esse nome em virtude da quantidade de mutucas existententes naquele local. Ninguém saía de lá sem lever uma boas picadas de mutuca. Essa deve ser a razão mais provável de ter esse nome.
No entanto, a Picada foi uma mais maravilhosa experiências da minha juventude. Na época do apogeu da Picada ninguém pensava em ir ao Balneário Lago Merin, a gurizada queria era curtir mesmo aquela  água gelada de arroio. Famílias inteiras iam à Picada.
A Picada era mais ou menos assim: havia uma rua de entrada, tinha que pular um portão e essa estradinha nos levava até às margens do arroio. Dos dois lados era bom, mas o lado preferido de todo o mundo era lado direito de quem ia, porque existia um areal, que dava ao arroio status de praia. Havia muitas árvores e barrancos onde se juntava uma gurizada para dar ponta na água. Existia também muitos butiazeiros e pés de araçá e maracujá. Era uma fartura.
Porém, não era nada fácil tomar banho lá. Primeiro porque não existia acesso para veículo. Tinha que ser a pé mesmo. Depois em certas épocas, a entrada não era permitida. Sempre havia os capatazes que corriam quem entrasse.
Eu e meus primos tivemos grandes aventuras nessa Picada. Algumas desastrosas. Uma vez queríamos acampar lá. Mas alguém nos disse que se ouvia gritos de crianças chorando durante a noite. Pio e eu bem que tentamos uma vez, entretanto, chegando a noite no cagaceamos e demos no pé. Se ouvia uns gritos à noite, realmente; mas não eram de crianças chorando. Era um pássaro que piava que nem criança quando chora. Como a gente ria disso depois.
Fora isso, as inúmeras pescarias que fazíamos nesse local. Apesar de ser um arroio raso, sempre se pescava peixe por lá, inclusive se fazia um assado de peixe na beira da água. Lembro-me de uma pescaria desastrada. Éramos eu, Luis, Cid, Pio, Negão Rafa, Valério, entre outros, fizemos na chamada parte funda da Picada. Era um local mais distante da estrada de entrada tinha que caminhar mato adentro. Fomos pescar lá e tiramos algumas traíras. Mas o que mais chamou a atenção, foi quando o Pio estava pescando com um dos meus caniços e a traíra engoliu o anzol e cortou a linha. Imaginem a cena. Luis, Valério, Pio, todo o mundo chutando a pobre trairinha para que ela não voltasse de novo para a água. Mas voltou, ela conseguiu retornar e nos deixou  na mão naquele dia. Olha que era uma traíra grandezinha.
Apesar de ser um arroiozinho de não mais do que um metro de profundidade, havia vezes que ela ficava profunda e perigosa. Quando chovia muito, ela ficava cheia e o banho era impossível. A água ia até a entrada do acesso às águas, mais de trinta metros da margem. A correnteza também era inimiga em dias de água cheia. Era muito perigoso. A gurizada só ia para olhar as águas, ninguém se animava adentrar.
Além das travessuras de guri, a Picada tinha também uma outra utilidade por aquelas zonas. Quando faltava água, era um camboio de gente se dirigindo para lá de balde e garrafas. Na Picada existia uma cacimba da mais pura água. Muita água bebi daquela cacimba. Lembro-me que ela ficava junto a uma tapera, rodeava de pés de figueira e araçá. Água boa e novinha.
Tempos bons que não voltam mais. Acredito até que hoje em dia ninguém vá mais à velha Picada tomar banho. Ficou no passado mesmo, na memória de quem la já foi um dia.